A história da mão gigante presa nas areias do Deserto do Atacama, no Chile

Mano del Desierto, escultura isolada no Deserto do Atacama - Foto: Reprodução/Poraíem2rodas

Às margens da Panamericana, no Deserto do Atacama, no norte do Chile, uma imensa mão acena para quem passa pelo quilômetro 1.300 da icônica estrada que corta o continente.

Poderia ser um aceno do tipo “Volte Sempre”, um pedido de socorro ou até uma proposta para uma reflexão política sobre o país. Mas trata-se de mais uma obra de um artista que vive “pensando e sonhando”, como ele mesmo se define.

Criada pelo chileno Mario Irarrázabal, a ‘Mano del Desierto’ (‘Mão do Deserto’, em português) é uma escultura de 12 metros de altura, inaugurada há quase duas décadas, a 75 quilômetros de Antofagasta.

Céu limpo da região proporciona imagens incríveis como essa – Foto: Nicolás Valdés Ortega

No seu livro-catálogo ‘Humano’, onde se pode ver a montagem dessa obra de malha de ferro em estrutura de aço coberta com estuque, o escultor de Santiago confessa:

“É talvez a minha obra preferida.”

Inspirado em uma viagem à ilha de Páscoa, um marco para o rompimento com seu estilo de trabalho anterior, a ‘Mano del Desierto’, que representa uma mão esquerda, é um reencontro com o mundo primitivo e a céu aberto.

“No início, pensaram que minhas mãos eram parte de um trabalho crítico, mas não. Eu estava trabalhando com um símbolo relacionado à natureza, com o espaço ao ar livre, com o sol e a contribuição do homem”, explica no documentário ‘Humano’.

Escultura de Punta del Este segue a mesma ideia – Foto: L. Salgado/Getty Images

De mãos dadas com o público?

Irarrázabal é conhecido pelas reticências aos museus, pois prefere que suas obras “sejam apreciadas com liberdade”, como declarou certa vez em uma entrevista.

O artista é também autor da ‘Mano de Punta del Este’ (1982), feita em apenas cinco dias e enterrada nas areias da Praia Brava, uma das atrações mais famosas desse balneário no extremo sul uruguaio. Cinco anos mais tarde, assinaria também a ‘Mano de Madrid’, atualmente, no parque Juan Carlos I, na capital espanhola.

Talvez seja por essa reserva ao confinamento da arte que o escultor declarou ter até considerado colocar uma escada na ‘Mano del Desierto’ para que os visitantes pudessem subir para riscá-la, já que não é raro ver a obra com “intervenções” feitas por visitantes.

Mãos fincadas nas areias do Deserto do Atacama e da praia em Punta Del Este – Foto: Crative Communs

Ao site da Faculdade de Artes da Universidade do Chile, Irarrázabal declarou:

“Não são rabiscos ofensivos, e sim pessoas escrevendo seu nome na tentativa de fazer parte da obra”.

A “contribuição” do público talvez nem seja a maior dificuldade para a manutenção da obra, que costuma passar por restauração duas vezes por ano.

A 1.100 metros sobre o nível do mar, a “mão” de Irarrázabal está constantemente exposta à variação das temperaturas extremas, dia e noite, e exige manutenção permanente pela Corporación Pro Antofagasta (PROA).

Céu do Atacama é imã de turistas – Foto: Wolfgang Kaehler/LightRocket via Getty Images

Céu de estrelas.

O Chile é considerado a capital mundial da astronomia. As condições favoráveis para observação astronômica e os mais de 300 dias de céu limpo por ano fazem o astroturismo ser um baita atrativo para quem visita o país.

A ‘Mano del Desierto’ parece querer tocar o imenso tapete de estrelas que forra o céu do norte chileno. A obra é considerada um dos destinos “Starlight”, da Fundação Starlight, que é responsável pela Maratona Fotográfica Starlight, premiação de registros astronômicos em lugares de visual único e sem poluição luminosa.

O Chile também ostenta centros astronômicos abertos para visitantes em locais como La Serena, San Pedro de Atacama e Antofagasta. O endereço mais relevante em escala internacional é o chamado ALMA, em Santiago.

Radiotelescópio do observatório ALMA no Deserto do Atacama – Foto: Getty Images

Referências

Quando estudava filosofia em Indiana, nos Estados Unidos, Mario Irarrázabal participou de uma oficina de escultura comandado por Waldemar Otto, artista polonês que se tornaria uma das principais referências para o chileno e com quem faria uma residência artística em Berlim, entre 1967 e 1968.

Assim como sua obra que emerge solitária no deserto, Irarrázabal também gosta de estar sozinho: “posso estar em silêncio, é um trabalho lento e reflexivo”.

“Busco a dimensão mágica da realidade, não o esotérico”.

Por Eduardo Vessoni

UOL

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