A Psicanálise a busca do Infantil( Por Max Diniz Cruzeiro)

Max Diniz Cruzeiro(DF)

A psicanálise investiga o processo de acontecer psíquico, então compreender o lugar do infantil é de suma importância para a busca desta constituição psíquica.
A construção da subjetividade é um processo que deva ocorrer de forma natural e o complexo de Édipo está no centro da construção da subjetividade psíquica.

Mas o leitor poderia indagar como ocorre este processo de constituição psíquico? Como é este acontecer psíquico?

O infantil não é tratado por Sigmund Freud por meio conceitual, o autor e pai da psicanálise desenvolveu uma linha de raciocínio corrente, em que as ideias eram dimensionadas para receberem novas oitavas de conhecimento, fato que ocorria à medida que o aprofundamento sobre a psique humana permitia a compreensão mais profunda sobre o psiquismo humano.

Então é comum observar na obra Freudiana abordagens indiretas e a apreensão sobre os textos é uma somatização do que pode ser inferido dentro das elaboradas dimensões da obra, e requer do leitor uma somatização do conteúdo para que o conhecimento sobre o infantil venha a aflorar de fato sobre a psique.

Quanto ao resgate das lembranças infantis Freud argumentava que era necessário que o paciente trouxesse a construção da infância de forma mais precisa possível.

Não menos importante sob esta tentativa de resgate do passado Freud se dedicou a reconstrução e reconstituição sobre o trabalho de interpretações de sonhos, pois eles representavam a pedra fundamental para fazer com que o paciente chegasse à livre associação de seus pensamentos, no sentido de discorrer sobre sua vida e seu passado sem que aspectos intervenientes como a moral inibisse o indivíduo de sua plena manifestação de pensamentos.

Então quando Freud fala das fases iniciais de vida sua construção de metalinguagem permite codificar o significado de seu significante infantil de distintas formas como: infância, infantil, resgate, algo da infância, conteúdo da infância,… Mas o que de fato queria Freud resgatar?

A construção de um pensamento se faz a partir de um aprofundamento progressivo de uma ideia inicial, assim como Freud a Doutora Zavaroni procurou instigar o ouvinte dentro do contexto de progressão dos fatores que levam a somatização e consequente construção da ideia central de Freud.

Mas o que de fato queria Freud Resgatar? Que lugar a infância o infantil vai ocupar na construção do psíquico?

Toda criança está inserida dentro de um contexto cultural e este contexto é formador de representações da criança e da sua infância. As representações são focadas a partir de parâmetros sociais, econômicos e psicológicos. Assim a psicanálise cuida para retirar do contexto cultural as características do indivíduo na busca do infantil para que seja capturado como um processo de interiorização de seu passado etário, de forma que teoria e prática constroem a subjetividade do indivíduo.

A infância no século XIX era considerada uma fase de importância a ser conservada, em oposição ao anonimato e falta de atenção dos séculos anteriores.

Mas este conteúdo Freudiano foi bem aceito, a estranheza nas ideias de Freud foi relacionar sobre o infantil sua retórica sobre a presença de sexualidade deste as primeiras fases de vida de um indivíduo.

O estudo Freudiano deu por fundamental a guarda da criança em relação à sua constituição psíquica, o que corroborou para as assertivas que estavam sendo desenvolvidas na época de seus estudos iniciais.

Do ponto de vista da constituição psíquica, algumas coisas têm que acontecer na infância. A psicanálise, portanto, se constrói entre a teoria e a prática Clínica pelo entrelaçamento da compreensão da infância.

A apreensão do infantil é um processo de aparelhamento da metapsicologia e do trabalho psicanalítico. Mas a pergunta que poderia ser feita para a construção da subjetividade é o que vem mesmo a ser a infância? Seria um relato de uma rememoração que segue uma cronologia que se inicia nas fases iniciais de vida até compor a solidificação do psíquico no indivíduo?

Então para a infância estariam relacionados: a fase de vida, o observável, o desenvolvimento e o cronológico; enquanto, para o infantil: o atemporal, o inconsciente, a pulsão e o originário.

É certo que todos tiveram infância, mas o mesmo poderia ser significativo para a busca do infantil?

O atemporal, quando se projeta o infantil, são os atributos que o indivíduo carrega consigo sobre a experimentação de sua infância, sua forma de ver o mundo em continuidade com um acontecimento passado, que é determinante no desenvolvimento psíquico. Que o acompanha em seu modo de agir, pensar e sentir e faz refletir sobre seu cotidiano. Como um desejo de édipo que está recorrente, recalcado e que continua agindo até o tempo atual (comparado em relação a uma fase mais adulta).

O infantil é inconsciente demanda escolhas. A vida psíquica sustentada pelo infantil está recalcada e inconsciente. O que origina o aparelho psíquico são as primeiras experiências de vida que vão estar no princípio desta constituição psíquica.

Então o problema se condensa em um indivíduo-paciente quando sua fase de vida encontra-se atravessada. Então há necessidade da reconstrução do infantil para a compreensão de si mesmo. De modo que a infância rememorada é o grande elemento definido da constituição psíquica.

Assim a construção do método psicanalítico requer a construção do infantil descrito na obra Freudiana. E os dois elementos caminham a se interceptar em um ciclo de ativação e desativação de perspectivas. Onde o fato Material se correlaciona com psíquico, em que a ligação entre a infância (material) e o infantil (psíquico) constrói a natureza com base na percepção atual de um indivíduo-paciente.

Assim é possível canalizar o resgate mnemônico do paciente, através do valor determinante e fundamental das experiências infantis, onde noções de desamparo, busca de satisfação e elaborações em torno de elementos precoces da constituição psíquica indicam no status atual em que o comportamento de um indivíduo é capaz de estar condicionado a um molde-reflexo do passado.

Se um bebê chora de fome, quando a mãe atende é formado uma correspondência e após este ato o vínculo passa a ser um signo de comunicação entre as partes. Assim, o choro busca satisfação e comunicação ao mesmo tempo.

Se o bebê não tiver alguém que supra suas necessidades básicas ele não sobrevive, como também se não tiver alguém que invista sobre o seu psíquico ele também não resistiria caindo em depressão profunda e o isolamento sensorial o levaria à morte. Isto é o grande significante para desamparo.

Tratar bebês como objeto os fazem tornar vítimas diretas da depressão ao se definhar até a morte. O gozo pela comida se escasseia, o desejo de condicionar estímulos se converte em estruturas de inércia rumo a desagregação sensorial. O amparo é, portanto fundamental na relação com outro indivíduo.

O desamparo psíquico se apresenta quando vivemos na angústia de um isolamento quanto na presença de humanidade.

O bebê não chora só pelo leite, mas pela satisfação, que passa a se nutrir também psiquicamente. Ao se alimentar, a expressão do bebê é uma sensação de gozo e num segundo momento o bebê alucina pelo seio materno até compreender que o referente do objeto (seios) é outro ser: sua mãe.

Cada fase da vida pessoas transcreve para a fase seguinte. Quando alguém fala da infância faz se a transcrição do momento vivido na forma de um registro. Por conseguinte, se reconstrói o passado infantil que traz as vivências de lembranças que encobrem umas coisas e recordam outras.

Muitos momentos não transcritos pelo indivíduo sobre sua infância ficam intraduzíveis pela ausência de linguagem para gerar a memorização pela significação da experiência.

O mundo psíquico de um indivíduo difere de outro pela percepção diferenciada do seu olhar. A linguagem denuncia a posição do simbólico e também da situação em que o psíquico se encontra em um momento específico da vida de um indivíduo.

As vivências corporais geram traços mnêmicos que não se apagam muito e são capazes de reproduzirem os sintomas.

A fantasia remete ao desejo de forma reconfigurada na forma de sonhos diurnos, a desenvolver fantasias conscientes no estado de vigília. Por outro lado, os devaneios e sonhos ao dormir são fantasias inconscientes, ou seja, desejos inconscientes. As fantasias originárias são afetas ao passado originário de um fato em que processos de castração e sedução são incorporados aos elementos de maturação contínuo do pensamento.

Na interpretação de sonhos questiona-se o poder da sedução real ou indesejada por algum objeto, assim o centro do sonho passa a ser o insumo para a canalização do centro do trabalho psicanalítico.

Através de princípios de interpretação dos sonhos e possível servir de uma base para a reconstrução da infância através do processo de relato e fala, de recapitulação do infantil e do caráter lacunal em que as projeções do pensamento do indivíduo-paciente insiste percorrer.

Não do que aconteceu ou deixou de acontecer, mas na representação apreendida. Não da infância, mas sim do infantil.

O inconsciente é inesgotável, exista uma construção contínua de recuperação de emoções, sensações, pensamentos, elementos, pulsões,…E as interconexões permitem infinitas sobreposições na recriação e criação de insights.

E por mais que tente resgatar uma lembrança todo o procedimento se converterá em um resgate falho da real situação que desencadeou o fato, pois é sempre algo que poderá ser lembrado de forma multidimensional.

Então o indivíduo-paciente precisa falar, de preferência fazendo associações livres, para que mais associações surjam e lacunas onde se concentram buracos do passado possam ser identificadas. Assim a fase de tratamento permite inserir o maior número possível de conexões entre os elementos que são dispostos para que a compreensão de um fato passado possa enfim ser compreendida e pacificar a mente dentro daquilo que é capaz de gerar transtorno.

Sobre o infantil ancoram: a sexualidade infantil, a pulsão e o recalque. As consequências diretas sobre a psique é que as construções do psíquico são transformadas por sobre uma amnésia infantil. Então o psicanalítico investiga o traumático como um traço mnêmico por sobre a atemporalidade do infantil em que os elementos do passado retransmitem por sobre o comportamento presente. Assim a sexualidade infantil é outro traço marcante que ajuda na construção da subjetividade e não menos importante não deve ser desprezada da análise do psicanalista.

Então paciente e psicanalista passam a perceber o infantil recalcado que insiste em se fazer presente. Para melhor compreensão deste fato recomenda-se a leitura do caso do Pequeno Hans e sua forma de tratamento e o caso do Homem dos Lobos de 19818 (1914).

Assim a dinâmica infantil surge da interação do processo somático de constituição psíquica e interpretação da constituição psíquica obtida através do processo de análise.

Conclui a Doutora Dione de Medeiros Lula Zavaroni que o trabalho psicanalítico é um trabalho de ressignificação do conceito do infantil no instante da inscrição destes elementos como componentes de um movimento de livre associação do paciente que permite reconfigurar sua estrutura presente.( Max Diniz Cruzeiro – Neurocientista Clínico, Psicopedagogo Clínico e Empresarial – www.lenderbook.com)

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