Abusado – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Leitores ando pra lá de abusado. Rendo-me a esta expressão do dialeto mais ou menos vulgar (tanto vulgar, como já em desuso, substituída que foi por outra expressão, de origem anátomo-obscena que é “de saco cheio”), para manifestar um estado de irritação e impaciência com certas realidades sociais, umas mais recentes, outras mais antigas, das sociedades contemporâneas mundiais em geral, e da sociedade brasileira em particular.

Por exemplo: tomei um abuso com esta mais que tendência que é a proliferação das diferenças nos campos das ideologias, das atitudes políticas e das posições dos grupos sociais. Foi o próprio presidente, general Charles De Gaulle que, não abusado, mas alegre pelo orgulho do seu nacionalismo francês, quem em certa ocasião indagou todo ancho: “Como governar um país com 325 queijos?” Esta quantidade da variedade de queijos “atormentava” o juízo do velho e carrancudo estadista. Pois hoje, torra o meu juízo dar conta de tantas diferenças que explodiram nos cenários social, político e cultural do mundo.

Se o absolutismo e o maniqueísmo são situações ruins, a exacerbação das diferenças, com o seu corolário que é o hiper-relativismo, é também, de outro modo, uma situação muito ruim. E o proselitismo de cada diferença, abusa e aporrinha mais ainda. Aparentemente eu estou escrevendo como se isto fosse mero desabafo de um desconforto particular, meu; de uma das minhas idiossincrasias. É. Mas, mais relevantemente, é um problema grave que atinge (para complicar, diga-se) todas as relações sociais na medida em que gera uma multiplicidade destrambelhada de identidades que não comungam quase nada entre si, instituindo um isolamento que não só esgarça, mas rasga em pedacinhos o tecido social, pondo em risco tanto o conceito abstrato de sociedade, como a vida concreta vivida no cotidiano comunicativo das relações sociais.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Uma das conseqüências disso é a perda da apreensão e da compreensão da realidade social como uma totalidade interdependente. Nessa situação de agora os agentes sociais penduram-se cada um no seu galho e no seu nicho, se lixando para as condições da árvore, esquecendo-se que, caso a árvore apodreça, ou fronda repercute em cada um dos galhos.

As condições econômicas atualmente vigentes explicam em parte esta irritante hipertrofia das subjetividades, que neste caso em vez de valorizar as individualidades, arrota arrogantemente o que de pior existe do narcisismo e do corporativismo, pervertendo o que de saudável existia quando era politicamente viável, proveitoso e adequado (às vezes, inadequado) enunciar o famoso lema “vive la différence”. Aparece então o que o arguto sociólogo Antônio Flávio Pierucci chamou, inclusive para título de seu ótimo livro, de Ciladas da Diferença. Tudo bem com os processos que levam à individualização. Mas atualmente chegou-se aos absurdos da hiper particularização. E, tudo aquilo que particulariza o indivíduo acarreta a diferenciação; e isto o afasta, não mais dos seus semelhantes, mas o afasta dos seus outros dessemelhantes. Esta é uma monstruosa hipertrofia que não vai ser possível suportar por muito tempo. Um outro abuso: com as manifestações que exibem uma certa admiração pela ignorância, pela grosseria e pelo rústico.

O historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello em muito recente entrevista fez referência a este fenômeno, particularmente com relação ao Brasil. Pela minha análise avalio que muito desta admiração pela ignorância é alimentada por duas ideologias: a do populismo político, culturalmente popularesco e carnavalizado e a dos regionalismos provincianos, sobremaneira o nordestino que delirantemente consagra com quase histeria manifestações artísticas, principalmente, que na realidade valem quase nada. E o pior é que agora essas manifestações são potencializadas pela mídia com suas terríveis técnicas e estratégias de marketing, com a própria aquiescência dos beneficiados. O debate piorou e não se vê a preocupação de melhorá-lo.

À vista destas constatações eu tomei um abuso…E estou mais abusado com o Ministro da Saúde, que se pudesse faria com que ele engolisse cada mentira proferida sobre a imunização, nem que fosse através de uma centena de folhas de papel das entrevistas mentirosas que deu. Estou abusado, e vou continuar assim, principalmente com esse rol de idiotices tomadas pelo governo Federal, tanto no tocante a imunização dos brasileiros, como na vã perspectiva de que mudando gestores públicos como no caso Petrobras, vai arrefecer o valor do combustível. Alias pensando bem os abusados são eles.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui