Agiotagem – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Algo de podre que vem de muito tempo persiste nos atualmente com mais força. é a imperdoável agiotagem praticada pelos bancos – aí incluídos os cartões de crédito – com a cumplicidade, melhor dizendo, com a conivência dos Ministério da Economia. No ordenamento jurídico brasileiro, nos contratos de mútuo celebrados entre particulares, a taxa de juros máxima admitida é o dobro dos juros moratórios legais incidentes sobre créditos fiscais.

Portanto, para se considerar usura os juros devem ser superiores a 2% ao mês. Mas isso é teoria. A agiotagem é tanto ou mais grave do que a corrupção nos Correios e do que o mensalão e outras práticas pouco ortodoxas que o PT exerceu com rara competência. Vamos aos números? Uma aplicação em poupança de R$ 100,00 feita em julho de 1994, quando foi implantado o Plano Real, teria rendido até hoje ao investidor a estratosférica soma de R$ 478,00, ou seja, ele estaria agora com 578,00, depois de 27 anos, portanto.  Se, no entanto, aquele mesmo mortal tivesse sacado do cheque especial em 1994 R$ 100,00, estaria devendo hoje R$ 239.259,00 ao banco. Ou seja, sacando R$ 100,00 do cheque especial ele ficaria devendo dez carros populares, e depositando R$ 100,00 na mesma data em 1994 teria rendimentos capazes de comprar dois e meio pneus aro 13. E pensar que neste País ainda há políticos com aquela conversa de que “estamos lutando por uma sociedade mais justa”. Ainda há uns cretinos acenando para nós, bestas, com “melhor distribuição de renda”. Na verdade, um sistema de governo que se possa chamar de sério e decente não aceita tamanho descalabro.

A agiotagem, todos sabemos, é a lei do cão, mas ainda assim espera-se menos perversa do que esta aí. O grande cientista da economia e das finanças deste País – estou falando do amado Guedes – que veio para resolver todos os nossos problemas e ajudar à política do FMI, não pode ou não quis mexer com os pobrezinhos banqueiros. Por que? Será que de fato acha razoável juro de 18% ao mês no cartão de crédito, e até 12% de juro no cheque especial? E as taxinhas que os bancos vêm empurrando em todos nós? Se, em vez de o dono do banco, fosse um de nós, da periferia, a cometer um pecado 1 bilhão de vezes menor, logo estaria algemado e incomunicável. Mas o banqueiro, não, este sangra os cidadãos com uma usura descomunal, e acaba homenageado e premiado pelo governo. A quem devemos elogiar, então? Governo ou banqueiros? Ou os dois? Ou, ao invés de confetes e serpentinas pra eles, devemos pensar em desobediência civil? Será que vão mandar me prender por incitação à desobediência civil? Para mim, a esta altura, já não faz diferença.

Mas devo concluir dizendo com toda a clareza possível: governo que deixa os bilionários arrastarem as raquíticas economias dos cidadãos sem um pai nosso de penitência não merece o nosso respeito. Em tempo: dá pra concluir que está faltando “aquilo roxo” (já li essa expressão em algum lugar) no Ministro da Economia, para limitar os lucros pra lá de criminosos dos donos do capital.

 

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