Autoritarismo – Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Caros leitores, confesso que o sonho de construir uma nova nação com promessas de ressurreição dos pobres e oprimidos, acabou virando um pesadelo. O PT tinha um programa, trabalhado mais de 20 anos, e acabou chegando ao poder, em janeiro de 2003, depois de consagradora vitória nas urnas. O forte apelo de um ex-operário se eleger presidente da República de uma das 15 maiores potências do mundo, em termos de Produto Interno Bruto (PIB), encheu o povo de esperança. Com sua legenda de pureza e respeito à ética na política, o governo do PT acabou sufocado por mais um poderoso surto de corrupção, propinas e atos agressivos à moral administrativa. Primeiro, foram os misteriosos assassinatos dos prefeitos Toninho do PT (Campinas) e Celso Daniel (Santo André), este economista e um dos principais coordenadores da campanha do candidato petista, seguidos, já no governo, do escândalo que envolveu Waldomiro Diniz, assessor do ministro José Dirceu, e pelas denúncias sobre o suposto pagamento do mensalão a parlamentares, para apoiarem projetos do governo e propinas nos Correios e no Instituto Brasileiro de Resseguros (IRB). Mas depois disso veio a desastrada Dilma, depois colocada pra fora, ficou Temer que também navegava nas mesmas ondas da corrupção.

Nossas decepções estão na ordem do dia, algumas de fundo tão parecido com a utopia de oceana que é, de 1656. É sempre sábio começar pelos clássicos, atentando para o que eles conceberam, escapando das “soluções” meio impensadas dos nossos contemporâneos, às vezes muito tingidas pelas colorações das mesquinharias pouco distanciadas do presente. Perdidos, podemos encontrar e nos encontrar achados nas sugestões destes clássicos que deveriam fazer parte da nossa educação e da nossa cultura humanística. Nosso Presidente atual, não tem um mínimo de consciência de gestão, e mais o que é ser um Presidente da República. São bobagens em cima de bobagens, quebra de hierarquia, intromissão em assuntos pequenos, quando o Brasil precisa de um gestor que tenha uma visão holística. Na verdade, O campo dos estudos políticos e sociais não existe sem dissonância. Os conceitos que se empregam para interpretar a sociedade, a organização política e os fatos culturais, por serem históricos, são muitas vezes fluídos e fugazes. Costumam pregar peças em autores, leitores e atores. Pode-se lembrar o que se passa com a palavra democracia. Hoje em dia, não há quem não se diga democrata. Perdemos horas preciosas, em numerosas reuniões, para estabelecer o sentido exato da expressão, que muitas vezes só ganha clareza quando devidamente adjetivada, como se não fosse possível qualquer concordância quanto à substância. Outras vezes, só sabemos do que se trata por oposição à ditadura ou autoritarismo, ou seja, não pelo que a democracia é, mas sim pelo que não é. Ocorre algo idêntico com o termo liberdade. Consta que Abraham Lincoln afirmou, certa vez, que “nunca se consegue dar uma boa definição para esta palavra. Todos estamos decididamente a favor da liberdade, mas nem sempre pensamos o mesmo quando a palavra sai de nossos lábios”. Antes dele, muitos outros já haviam tropeçado no problema. Inúmeros conceitos da teoria social contemporânea geram controvérsias constantes. Um deles é o de hegemonia. Trata-se de um conceito empregado basicamente para caracterizar a capacidade que um grupo tem de dirigir eticamente e estabelecer um novo campo de liderança. Mas, como a palavra tem uma origem militar, muitos a aproximam da ideia de monopólio ou uso intensivo do poder, quer dizer, veem-na muito mais como sinônimo de força, autoridade, imposição.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

O conceito de consenso sofre algo parecido: elaborado para qualificar uma articulação pluralista de ideias e valores, uma unidade na diversidade, acaba sendo reduzido à ausência de dissenso e divergência, uma situação mais de silêncio passivo e unanimidade que de ruído e multiplicidade. Manuseado com este registro, o conceito de consenso perde operacionalidade e se torna um jargão sem maior utilidade. Quando muito, vale para que se demarque uma ou outra posição em termos políticos mais imediatos. Ocorre algo ainda pior com o conceito de sociedade civil. Ao se disseminar largamente, colando-se ao senso comum, ao imaginário e ao discurso político das sociedades contemporâneas, o conceito perdeu precisão: empregam-no tanto a esquerda histórica quanto as novas esquerdas, tanto o centro liberal quanto a direita fascista. Os vários interlocutores referem-se a coisas distintas, mas empregam a mesma palavra. Inevitável que a confusão prevaleça.

A sociedade civil serve para que se faça oposição ao capitalismo e para que se delineiem estratégias de convivência com o mercado, para que se proponham programas democráticos radicais e para que se legitimem propostas de reforma gerencial no campo das políticas públicas. Busca-se apoio na ideia tanto para projetar um Estado efetivamente democrático quanto para se atacar todo e qualquer Estado. É em seu nome que se combate o neoliberalismo e se busca delinear uma estratégia em favor de uma outra globalização, mas é também com base nela que se faz o elogio da atual fase histórica e se minimizam os efeitos das políticas neoliberais.

O apelo ao conceito serve tanto para que se defenda a autonomia dos cidadãos quanto para que se justifiquem programas de ajuste fiscal e desestatização, nos quais a sociedade civil é chamada para compartilhar encargos até então eminentemente estatais. A incorporação da ideia de participação à linguagem do planejamento fez com que a sociedade civil se deslocasse de seu campo principal (o da organização de novas hegemonias) e se convertesse num espaço de cooperação e gestão da crise. O problema extravasa os ambientes acadêmicos ou jornalísticos. Costumamos assistir a arengas intermináveis ou a embates políticos acalorados que são, no fundo, desentendimentos por falta de clareza conceitual.

Atritos onde as falas se opõem e geram animosidades absurdas não porque os interlocutores estejam em campos políticos ou ideológicos distintos, mas porque não estabelecem com rigor os termos com que estão lidando ou em torno dos quais divergem. Com isto, os pequenos interesses se impõem, os gestos e as intenções deixam de contar, a política com P maiúsculo se ausenta. Trata-se de algo em boa medida inevitável. Seus efeitos, porém, podem ser atenuados. Para tanto, além de empenho intelectual, fazem-se necessárias uma boa dose de honestidade, polidez e caráter, bem como uma sincera disposição para o entendimento. Coisas, em suma, que não se acha com facilidade. No presente momento, nada temos que possa caracterizar democracia, mas sim um autoritarismo desmedido e ilógico.


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