Bolero imortal – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Nos angustiantes momentos da escolha dos temas para a crônica semanal, tal a diversidade deles, fiquei entre escrever sobre a desastrada decisão do STF retomando entendimento de que réu só deve cumprir pena após esgotados os recursos, e a violência em Manaus, com homicídios e chacinas. Contudo, optei por um tema sentimental. Falar sobre uma música da compositora mexicana Consuelo Velásquez, autora do famoso e imortal bolero Besame Mucho, cujos acordes estão até hoje presentes para causar emoção em velhos e novos corações.

Minha geração foi embalada no romantismo despertado pela inolvidável canção. Durante os bailes sabáticos do antigo Diretório Central dos Estudantes (DCE), nos domingos de sol do Cheik Clube e Barés ou no baile domingueiro do mingau do Ideal Clube, nos deixávamos impregnar pela sedução despertada nos boleros e canções em voga naquele tempo.

Recordo-me bem da vinda a Manaus do cantor Nelson Gonçalves, exibindo-se no acanhado auditório da antiga Rádio Rio Mar. Uma multidão de adolescentes, balzaquianas, tal como ainda hoje acontece com Roberto Carlos, espremia-se silenciosa, ouvindo o timbre maravilhoso do artista, em cujo repertório não faltava Besame Mucho e a excitante Naquela Mesa. Ao citá-los, asseguro, estão todos os leitores daquela geração com sua musicalidade bailando dentro da lembrança.

Besame Mucho foi tema musical de um provável romance entre a ex ministra da Economia Zélia Cardoso e nosso Bernardo Cabral aquela época, Ministro da Justiça. É possível até mesmo ensaiar alguns passos de dança ao seu ritmo dolente. Quando ainda funcionava o Ideal Clube, frequentado por Benedito Lyra, Raimundo Cabral, e demais personagens da sociedade baré, outro cantor fazia grande sucesso: Pedro Vargas, cuja belíssima voz encantou gerações no mundo inteiro. Por aqui passaram, cantando boleros, substituído, com outros estrangeiros, pela presença marcante de Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas e Orlando Silva, com suas canções sempre lembradas. Pouco a pouco, os cantores mexicanos foram cedendo espaço aos nacionais. Mas suas composições continuaram presentes em todos os repertórios.

Quando me recordo dos bailes destinados aos universitários nos salões do antigo DCE, as regras estabelecidas pela direção do diretório eram inflexíveis. Qualquer quebra do protocolo firmado era punida com a expulsão do salão. Nada havia em demasia. Se algum par se excedia no abraço com o rosto colado ou se aventurava a uma carícia mais ousada, lá estava o severo disciplinador, a convidar delicadamente os bailarinos a abandonarem a festa.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Como mudaram os tempos. Hoje, pares rodopiam separados em músicas destituídas de harmonia ou suavidade num tempo marcado pela mais intensa liberdade sexual. Já percebi, nas raras oportunidades em que compareço a festas, o efeito calmante e sedutor quando a música rock barulhenta e ritmada é substituída por boleros e sambas-canções.

Há imediata adaptação dos pares na aproximação dos corpos, como se estivessem tangidos pela magia do prazer, que assim o diga Ambrósio Assayag, um pé de valsa como chamávamos antigamente.

Por todas essas recordações e lembranças, despertadas pela notícia de um baile dos Originais antigo Blue Birds, a preferência da crônica semanal. Se você é leitor pertencente àquela geração a que estou me referindo, deve ter penetrado imediatamente no mundo de suas saudades para reviver um curto e breve momento de emoção. Ao contrário, se você pertence a estas nova e novíssima gerações, pare um instante e busque ouvir em silêncio o imortal bolero Besame Mucho e vai sentir, como seus ancestrais viveram, instantes maravilhosos. Afinal, no mundo apressado de hoje, pedir um beijo como na canção, como se fuera esta noche la ultima vez, equivale a sentir a eternidade do amor, jamais interrompida pela voragem do tempo e a crueldade dos homens. A morte de Consuelo Velásquez fez muitos recordarem o bolero imortal. Mas como dói essa saudade.

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