Brasil não está preparado para gerir um plano de contingência, diz oceanógrafo

Pessoas recolhem óleo no mar - Foto: Joyce Farias

O aparecimento de óleo nas praias do Nordeste ao longo dos últimos 60 dias, a morosidade em retirá-lo do mar e as dificuldades para concluir as investigações, mostram que “não estamos preparados para lidar com uma crise e gerir um plano de contingência, uma vez ocorrido o acidente”, diz o oceanógrafo David Zee à IHU On-Line.

Segundo ele, depois de acionado o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional – PNC, “pouca coisa funcionou, porque faltou equipamento, faltou treinamento e faltou um planejamento de comando”.

David Zee – Foto: Reprodução/Youtube

Na entrevista a seguir, concedida por telefone, ele lamenta que recursos oriundos dos royalties do pré-sal não foram destinados para criar um plano de contingência efetivo. “Infelizmente, a divisão desses recursos é feita entre estados, municípios e a União, e na hora de aplicar esses recursos, o que se percebe é que o governo federal aplica alguma coisa, mas na esfera estadual se investem menos recursos e na esfera municipal menos ainda. Percebemos que muitos municípios costeiros que receberam royalties do petróleo transformaram esses recursos em porcelanato para cobrir a avenida beira-mar”, informa.

Na avaliação do oceanógrafo, o Brasil precisa investir urgentemente num centro permanente de comando e gestão de riscos. “Não se pode, na hora em que ocorre um acidente, reunir um bando de pessoas e ver no que vai dar”, afirma. Segundo ele, os órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental do território marinho não têm um sistema de monitoramento por satélite, nem pessoal especializado para vigiar pontos de alto risco de vazamento de petróleo.

“Tem que ter um ‘big brother’ em cima desses pontos, porque não podemos contar unicamente com a ética das empresas que produzem petróleo de denunciar quando há um vazamento”, sugere.

Cabo de Santo Agostinho | Foto: Salve Macaraípe – Fotos Públicas

Zee defende ainda que as empresas de petróleo, que têm centros de pesquisa ultrassofisticados de exploração, invistam na prevenção e na contingência de riscos.

“Não quero demonizar a indústria do petróleo, mas assim como o Brasil é campeão em produção em águas profundas, tem alta tecnologia de prospecção em águas profundas, ele também poderia ser campeão no planejamento, na prevenção, na contingência, para quando acontecerem acidentes. Poderíamos dar um exemplo para o mundo de como somos capazes de preservar os recursos marinhos, ainda mais agora, que o Brasil pleiteia o aumento do seu território marinho, com a Amazônia Azul”.

E questiona: “Temos condições de dar segurança para eventuais navios que são atacados? Temos condições de fornecer comunicação para todas as embarcações? Temos um poder de fiscalização para esse novo território marinho que pretendemos receber?

Com este acontecimento, temos que colocar a mão na cabeça e pensar com seriedade que atitudes podemos tomar para que amanhã a comunidade internacional aceite o pleito do Brasil de aumentar o seu espaço territorial marinho”.

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