Como aliviar a Zoom fatigue, cansaço causado pelas videoconferências na pandemia

Estudo aponta que videoconferências podem ser mais cansativas do que reuniões presenciais - Foto: Chris Montgomery/Unplash

Por Rodolfo Milone

Com a pandemia do coronavírus impossibilitando encontros presenciais, muitas empresas tiveram que trocar a sala de reunião por aplicativos de videoconferência, como o Zoom – um dos que mais cresceu durante a quarentena. De acordo com levantamento apresentado pela agência Reuters, a companhia atingiu a marca de 300 milhões de participantes de reuniões virtuais por dia, ainda em abril do ano passado.

Porém, o excesso de videoconferências parece estar causando um impacto direto na saúde de muitos trabalhadores. O cansaço e a exaustão após um dia de videochamadas é uma questão tão comum que o professor de Psicologia e pesquisador da Universidade de Stanford, Jeremy Bailenson, chegou a um novo termo: “Zoom fatigue” ou, em português, fadiga do Zoom. O nome vem pelo sucesso do aplicativo, mas a condição pode aparecer em usuários das mais diversas plataformas de videoconferências – Google Meet, Skype, Microsoft Teams etc.

Seja pelo esforço do cérebro em interpretar cenários de apenas duas dimensões, pela incapacidade de se expressar por gestos e olhares ou ainda pela hiperexposição da própria imagem, o fato apontado pelo estudo é que, cada vez mais, os profissionais saem esgotados de um dia de reunião durante a pandemia – mais cansados, inclusive, do que estariam se tivessem uma série de encontros presenciais.

Ao mesmo tempo em que buscam entender os motivos por trás da Zoom fatigue, Bailenson e equipe também se dedicaram a selecionar os principais sintomas da condição e propor soluções, a curto prazo, para auxiliar trabalhadores que sofrem com as consequências.

Sintomas da Zoom fatigue

As principais consequências da Zoom fatigue já podem ser notadas em consultórios de terapia. “Percebi um aumento significativo da ansiedade, além de bastante cansaço e diminuição da concentração por parte dos pacientes. Antes da pandemia já era comum, mas no último ano apareceram muito casos”, afirma a psicóloga Ully Guahy.

Um dos motivos para isso é a exaustão mental, intensificada pela Zoom fatigue. Por isso, a psicóloga salienta a importância de se atentar aos sintomas da condição, que podem ser baixa concentração, cansaço extremo e constante, sono excessivo, insônia, irritabilidade, apatia ou desânimo, falhas na memória, queda na imunidade e diminuição da libido.

“Caso os sinais sejam recorrentes e estejam atrapalhando o dia a dia, é indicado procurar ajuda profissional”, aponta Ully Guahy.

Como aliviar a Zoom fatigue?

Em seu estudo, Jeremy Bailenson propõe quatro principais motivos para que a Zoom fatigue ocorra com mais frequência. A primeira seria o contato visual extensivo em a tela a poucos centímetros do rosto. Logo depois, vem o chamado “efeito espelho”, quando a pessoa consegue se ver durante a reunião, por meio da projeção de sua imagem no aplicativo.

A redução da mobilidade e a necessidade exagerada de se expressar por gestos também entram no pacote. Tudo isso pode resultar em profissionais sem ânimo para fazer alguma atividade após uma videoconferência, além de se sentirem esgotados, com dores na coluna e nos olhos.

Porém, é possível diminuir os efeitos e aliviar a Zoom fatigue. Para isso, é aconselhado que a pessoa analise seu próprio comportamento, a fim de perceber quais fatores pesam mais em sua rotina, podendo dedicar-se com mais intensidade a essas questões.

Tela com foco em um participante por vez

Cansaço visual é um dos principais componentes da Zoom fatigue. Em uma reunião presencial, é humanamente impossível encarar muitas pessoas de uma só vez. As videoconferências, por outro lado, permitem que o usuário olhe todos os participantes simultaneamente. À primeira vista, pode parecer uma vantagem que possibilita a inclusão de todos os membros. Porém, a longo prazo, essa ação demanda esforço, causando exaustão e desânimo após a reunião.

“Nosso cérebro precisa prestar muito mais atenção, ficar muito mais atento às informações, além de fazermos um esforço maior para nos comunicarmos. No fim das contas, nos sentimos extremamente sobrecarregados porque realmente foi exigido muito mais da nossa atenção e disposição durante esses encontros on-line”, afirma a psicóloga.

Para evitar o problema, a dica é priorizar modelos de conversas em que a tela maior seja reservada apenas ao usuário que está falando. Assim, os outros participantes podem permanecer ocultados, oferecendo maior foco a quem fala.

Ocultação da própria imagem

O “efeito espelho” – quando o participante vê sua própria imagem no aplicativo – está entre uma das consequências mais danosas, de acordo com o estudo da universidade americana. Como aponta a pesquisa, é natural que o ser humano tenda a olhar seu rosto quando possível. Diferente de reuniões presenciais, por meio do Zoom e outras ferramentas é possível observar as próprias feições enquanto se fala, faz uma pergunta ou escuta um colega.

Mais uma vez, isso causa um efeito de fatiga para o cérebro e faz o usuário sentir-se mais inseguro, focando em pontos específicos que não gosta em sua aparência. Números do Google Trend apontam aumento de pesquisas por termos como “rinoplastia” durante os primeiros meses de quarentena.

No Brasil, buscas no Google por “rinoplastia” disparam a partir de maio de 2020 – Foto: Reprodução/Google Trends

Para diminuir o “efeito espelho”, em reuniões em que é preciso permanecer com a câmera ligada, a orientação é ocultar a própria imagem. Assim, outros usuários poderão vê-lo, mas o indivíduo irá visualizar apenas os outros participantes. Além de evitar que a pessoa encare a si mesma por muito tempo, também ajudará a manter o foco na discussão.

Distância entre o usuário e a tela

Uma grande perda de videoconferências em relação às reuniões presenciais é a diminuição da mobilidade. Estudos citados pela Universidade de Stanford afirmam que a performance cognitiva de alguém pode melhorar quando a pessoa está se mexendo. No meio virtual, as câmeras apontam para o mesmo lugar, normalmente acima do busto do usuário – impossibilitando movimentos expansivos.

Para contornar o problema, a orientação da pesquisa americana é criar espaço e flexibilidade. Para isso, é possível apostar em teclados externos, que irão afastar o usuário da tela do computador, além de câmeras sem fio, que podem ser posicionadas em diferentes pontos do escritório – permitindo maior liberdade de movimentos, sem correr o risco de ter a imagem cortada.

Reuniões apenas com áudio podem ajudar

Durante uma reunião presencial, gestos não-verbais são comuns. Aceno de cabeça, revirada de olhos, suspiros. Porém, no digital, essas ações precisam ser acentuadas para serem captadas adequadamente pela câmera. Como resultado, as pessoas realizam maiores movimentos e, até mesmo, aumentam o volume de sua voz, mesmo sem necessidade.

Portanto, em dias de longas reuniões, o pesquisador de Stanford aconselha que o usuário desligue a câmera em alguns momentos, se possível. Além de representar uma pausa dos gestos físicos constantes, também é uma maneira de diminuir as consequências de outros problemas, como o efeito espelho.

Equilíbrio na rotina

Para além das orientações apontadas pelo estudo, Ully Guahy reforça a necessidade de buscar a manutenção de um dia a dia equilibrado. “É essencial, dentro das possibilidades, estabelecer uma rotina saudável, com exercícios físicos, momentos de lazer, descanso e boa alimentação”, aconselha a psicóloga.

Como é exigido muito esforço do cérebro durante videoconferências, momentos de relaxamento tornam-se ainda mais importantes para evitar desgaste mental. “Temos que ouvir nosso corpo para atendermos às nossas necessidades singulares”, indica a profissional.

Além disso, Guahy também destaca a importância de se montar uma rede de apoio, seja entre amigos ou até mesmo por meio de sessões de terapia. “É fundamental lembrarmos que não estamos sozinhos e que há outras pessoas que compartilham desses problemas. Também é sempre válido lembrar: caso sinta necessidade, não hesite em buscar ajuda de um profissional para te auxiliar nesse processo”, conclui.

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