[Crônica] O que a raposa diz? – Isabela Abes Casaca


The_Fox_-_YlvisJ. H. Magalhães estava na casa do momento, do instante, do segundo. O ponto mais bem frequentado pelos festejantes de plantão. A casa noturna mais prestigiada dos últimos tempos da última semana.

R. A. Queiroz trajava sua mais exuberante roupa, da mais custosa marca, da mais célebre grif, desenhado pelo mais badalado estilista dos últimos tempos da última semana.

T. C. Andrade dançava freneticamente, imitando a coreografia (sem ritmo, suavidade ou graça) vanguardista elaborada pela mais incrível celebridade dos últimos tempos da última semana.

J. H. Magalhães, R. A. Queiroz e T. C. Andrade pulavam juntos ao som de inúmeras onomatopeias aleatórias, tão iguais uns aos outros, tão impessoais uns com os outros. Quando chegava o refrão gritavam com todos os pulmões:

WHAT DOES THE FOX SAYS? WHAT DOES THE FOX SAYS? WHAT DOES THE FOX SAYS?

what-does-the-fox-sayJ. H. Magalhães observava os outros, seus pares daquela noite, seus amigos de infância daquele momento. Pareciam velhos conhecidos dos últimos instantes, sem memórias em comum, fidelidade vacilante.

R. A. Queiroz olhava alguém interessante, roupa bem costurada, cabelo bem penteado, sorriso bem elaborado. Que paixão avassaladora instantânea, certamente um amor para toda vida, pelo menos naquela noite.

T. C. Andrade repetia frases feitas, improvisos bem decorados, espontaneidades premeditadas, gargalhadas simuladas, inteligencia e sagacidade ensaiada, gestos e olhares programados.

J. H. Magalhães, R. A. Queiroz e T. C. Andrade tornavam a pular, cortando o ar, sacudindo as cabeças, fiéis fregueses da melodia composta pelos noruegueses.

WHAT DOES THE FOX SAYS? WHAT DOES THE FOX SAYS? WHAT DOES THE FOX SAYS?

Vamers-FIY-Ermahgerd-What-does-the-Fox-say-Ylvis-has-the-answer-Flying-FoxesJ. H. Magalhães estava rodeado de pessoas, mas se sentia só.

R. A. Queiroz flertava com alguém, mas se sentia só.

T. C. Andrade falava sem parar, mas se sentia só.

Que modo de comemorar a passagem de ano, com o coração, virado, dando cambalhotas, num tsunami de solitudine.

Contudo, a música não permite aos festejantes o desanimo, mais uma vez o som se ergue entre as paredes do estabelecimento provocando êxtase, virando o verso do avesso, virando o verso do inverso.

J. H. Magalhães, R. A. Queiroz e T. C. Andrade tornavam a pular embalados por estridentes onomatopéias, sentiam-se como flutuando em um videoclipe, cantando em plenos pulmões o refrão e o trecho final:

WHAT DOES THE FOX SAYS???

The secret of the fox, ancient mystery, somewhere deep in the woods, I know you’re hiding, what is your sound? Will we ever know? Will always be a mystery, what do you say? You’re my guardian angel, hiding in the woods, what is your sound? Will we ever know? I want to… I want to… I want to know!

Mas, afinal: O que a raposa diz? Oras é fácil!

Ana lia para seus irmãos caçulas o livro de Antoine de Saint-Exupéry, mais precisamente o diálogo da Raposa com o Princípezinho:

E foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia, disse a raposa.
– Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira…
– Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita…
– Sou uma raposa, disse a raposa
– Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste
– Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
– Ah! desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
– Que quer dizer “cativar”?
– É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa “criar laços.
– Criar laços?
– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo… Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste. Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo …
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
– Por favor… cativa-me disse ela.
– Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
– A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo, cativa-me!
Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto …
No dia seguinte o principezinho voltou.
– Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração … É preciso ritos.
– Que é um rito? perguntou o principezinho.
– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.
Assim o principezinho cativou a raposa.
Disse a raposa:
– Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…

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