Descoberta da 1ª vacina da humanidade, hoje seria proibida pela OMS, Anvisa, MS

Como a vacinação em massa salvou a Escócia em 1950 - foto: arquivo/BBC News Brasil

A guerra contra a varíola, no século XVIII, parecia perdida até que um médico rural inglês, Edward Jenner, decidiu promover a experiência mais ousada da história. Tanto que hoje provavelmente seria proibido.

Jenner havia observado que as mulheres ordenhadoras contaminadas com a benigna varíola das vacas não sofriam a varíola humana que enchia as ruas de cadáveres.

Num dia de 1796, colheu o líquido das espinhas de uma dessas mulheres, Sarah Nelmes, e o inoculou em um menino de 8 anos, James Philipps. Seis semanas depois, o médico introduziu a transpiração de um doente de varíola no braço do menino. E o garoto, em vez de morrer chafurdando em fezes, sobreviveu.

Primeira imunização

Jenner acabava de inventar a imunização, um ato que atualmente salva nove milhões de vidas por ano, segundo a Uunicef (órgão da ONU para a infância). Como a ideia surgiu da observação das vacas e das mulheres que as ordenhavam, o benéfico pus acabou sendo chamado de vacina. Mas a cientista brasileira Clarissa Damaso acredita que o nome é equivocado. “Talvez a vacina devesse se chamar equina. E o procedimento deveria se chamar equinação em vez de vacinação”, afirma.

Vacina derrota a Varíola

A varíola foi derrotada há quatro décadas. O cozinheiro somali Ali Maow Maalin, então com 23 anos, foi a última pessoa a ser infectada pela varíola de maneira natural, em 26 de outubro de 1977. Sua foto meses depois – curado, sorridente e sem pústulas – é um ícone da saúde pública.

Graças a uma campanha de vacinação maciça, capitaneada pela Organização Mundial da Saúde, a varíola é a única enfermidade humana erradicada da face da Terra. Mas o que havia dentro das vacinas usadas desde 1796 contra essa peste?

A varíola matava 400.000 europeus a cada ano no século XVIII

Damaso, bióloga molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ressalta que em nenhuma das antigas vacinas que ainda estão conservadas aparece a varíola bovina. Sua pesquisa sugere que Jenner teria utilizado a varíola de cavalos. O próprio médico em inglês, em um texto publicado em 1798, defendia que “a doença progride do cavalo ao mamilo da vaca, e da vaca para a pessoa”, destaca Damasio em um estudo publicado na revista especializada The Lancet Infectious Diseases.

Como quase qualquer avanço ao longo da história, a imunização enfrentou a oposição de alguns setores da Igreja. No século XVIII, um proeminente reverendo cristão de Londres, Edmund Massey, diante dos progressos que acabariam resultando na vacina de Jenner, atacou as medidas de saúde preventivas por julgar que elas se opunham aos desígnios de Deus. No entanto, seus argumentos acabaram no lixo da história e o sucesso da vacina no século XIX foi enorme.

Ali Maow Maalin, último doente natural de varíolaOMS – foto: recorte

Em 1803, o médico espanhol Francisco Xavier Balmis recolheu 18 crianças dos orfanatos de Santiago de Compostela e outras quatro de instituições de Madri. A missão envolvendo os chamados galeguinhos consistia em embarcá-los em um navio na Corunha e serem inoculados com a suposta varíola bovina, um a um, para que a vacina chegasse viva, de braço a braço, até a América, onde a doença levada pelos espanhóis tinha aniquilado civilizações inteiras.

Diante da falta de injeções de varíola bovina, a vacina era transportada desta maneira rudimentar pelo mundo, assim como os humanos pré-históricos transportavam sua tocha no filme A Guerra do Fogo. Em 1864, por exemplo, o médico francês Gustave Lanoix viajou até Nápoles, onde o italiano Giuseppe Nigri aperfeiçoara um método para passar a vacina de linfa de bezerro a bezerro, sem precisar dos bracinhos de crianças. Impressionado, Lanoix regressou a Paris com uma vaca napolitana e montou o Instituto de Vacinação Animal.

A pandemia de covid-19 trouxe o anseio por uma vacina contra o novo vírus. Hoje considerado praxe, método de imunização surgiu a partir de procedimento do século 18 para combater a varíola que podia até levar à morte – foto: desta/recorte

Ali, logo em 1866, o francês substituiu a cepa italiana por líquido de pústulas de um surto de varíola em vacas do vilarejo de Beaugency, no vale do Loire. A partir dessas amostras, começou a estandardização da vacina. A chamada linfa de Beaugency viajou pela Europa e se espalhou pela África e pela América. Chegou ao Brasil em 1887. “Fizemos o sequenciamento do genoma completo dessa cepa e vimos que ela está extremamente ligada ao vírus da varíola equina”, afirma Damaso.

Na realidade, todas as amostras de vacinas antigas que ainda estão conservadas contêm o vaccínia, um vírus de origem desconhecida que não é encontrado na natureza e que pertence à mesma família que as varíolas humana, bovina e equina. Damaso recorda que a versão dos cavalos também pode infectar as vacas, produzindo as mesmas pústulas, e vice-versa.

El país

 

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