Falácia Econômica – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Que me desculpem os amigos economistas como Osires Silva, Ozias Santiago, Onildo Elias, José Mathias, Fredson Carvalho e tantos outros que me perdoem não cita-los, mas vejo que só há três atitudes possíveis perante situações críticas: ignorá-las e ser destruído por elas, apequenar-se e sair por baixo, “dar a volta por cima” e crescer com elas. O ideograma chinês para a palavra crise aponta seu duplo sentido: dificuldade & oportunidade. Devemos ter presente essas lições da vida que transcendem a mera economia, para enfrentarmos a situação atual. O presidente, ministros da área econômica, ex-ministros, economistas acadêmicos daqui e de fora são unânimes em nos alertar que estamos em situação de crise. Estamos todos cientes, as autoridades, os economistas, os professores, os formadores de opinião, as lideranças, os empresários, os contribuintes e os consumidores. Assim, passamos todos da “cultura da inflação” para a “cultura da crise”. E este é um daqueles casos em que as profecias aceitas acabam por engendrar sua realização. Assim, nossas observações iniciais podem soar como tentativa de exorcizar a realidade pregando um sermão, pois a economia parece ser uma das realidades mais objetivas, mais concretas e mais duras, indiferente, portanto, à vontade e refratária a rezas. Que efeito rezas e sermões podem ter sobre realidades matemáticas? Mas não se trata disso. Precisamente ao contrário, aqui são os números da pretensa realidade que constituem a ilusão.

A economia não é nem uma fatalidade nem uma ciência numérica. No máximo, pode ser uma “ciência desalentadora”. A força das previsões depende, como as profecias, da fé que nelas se deposite e da passividade com que se aceite sua realização. E isto também não é sermão, mas uma constatação da boa Economia. O núcleo do pensamento das melhores cabeças econômicas deste século – Keynes e Hayek – está ancorado na convicção (óbvia por outro lado) de que o homem, por sua atitude, suas decisões, sua ação, é o construtor de sua realidade objetiva e numérica, o formulado da conjuntura e o reformulado de sua política. E isto também não é simples sermão, mas o fundamento primeiro e último da Economia real. Assim, as previsões, o estado de espírito, as atitudes que se adotem perante uma situação de crise comandam não só os pensamentos como a ação, as providências e medidas que se tomam e são fatores capitais do seu agravamento ou superação. É o caso que depende da escolha: aceitação passiva, sair por baixo, ou dar a volta por cima. A esse respeito, parece-nos também equivocada a ênfase reducionista que se dá à questão dos juros na economia, como se os altos fossem o empecilho ao desenvolvimento e os baixos a varinha mágica para a reativação econômica. É uma falácia que conduz a um falso diagnóstico.

É inegável que os juros, como preço do dinheiro, podem ser um dos catalisadores da atividade econômica, principalmente quando se lhes atribui o papel de “gênio da lâmpada de Aladim” e se o investe do papel de bode expiatório da inatividade. Mas se se pudesse tomar dinheiro de graça, a 0% de juros (preferivelmente com calote assegurado no vencimento das dívidas), em que isto aumentaria a atividade econômica? – ou, ao contrário, a paralisaria? Concretamente falando, se bem que juros de 12% possam de fato se constituir no maior componente final dos preços e no maior espantalho para produtores e consumidores, na vida real, em uma economia saudável, quer do ponto de vista global, quer no caso de qualquer empresa, a parcela dispendida com juros nunca chega a ter destaque nos custos e nos preços, nas contas-de-resultado das empresas, nos lucros-e-perdas.

Ignora-se estudos a esse respeito, mas sob esse aspecto de influência em custos/preços o “custo-Estado” é muito mais visível e importante, pois se sabe que representa cerca de um terço de tudo o que se produz e consome no País. Onde pretendemos chegar com estas considerações não-ortodoxas? Ao ponto de que partimos. Ao fato de que melhor se enfrenta uma crise adotando-se a disposição de vencê-la com iniciativas construtivas do que se resignando a aguentá-la passivamente e se praticando a “cultura da crise”. Obviamente, para isso se requer uma mudança de espírito, de postura psicológica, de atividade mental – e prática. Não se trata de ignorar a realidade, mas de enfrentá-la criativamente. Para isso não precisamos de lições de filosofia nem de ensinamentos técnicos. Não é com eles que estamos vendo, diariamente, inumeráveis exemplos de iniciativas produtivas dados pelo povo brasileiro, em todos os setores, fruto da necessidade, da vontade e da criatividade. Um exemplo admirável a ser meditado e adotado por todas nossas lideranças.

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