Fim do Mais Médicos: venceu a insensatez – por Arthur Chioro

Arthur Chioro é médico e professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e ex-ministro da Saúde

Uma tragédia para a vida e a saúde de 30 milhões de brasileiros. Um caos para a organização do SUS. Somente Mauá perderá 32 médicos. As 2.885 prefeituras que contam com cubanos do Programa Mais Médicos (PMM) e as 1.550 que dependem exclusivamente dos médicos do Programa entrarão em colapso.

Um vexame internacional que abala a relação do país com a Organização Pan-Americana de Saúde (OMS).

Com o fim de mais de 8.500 equipes de Saúde da Família voltaremos ao dramático quadro vigente até 2013, quando brasileiros que viviam em áreas de alta vulnerabilidade não tinham acesso às ações básicas de saúde. Quem pagará a conta serão os que mais precisam do SUS, graças ao total despreparo do presidente eleito, incapaz de medir suas palavras.

Aos que festejam o rompimento da parceria com a OPAS e Cuba, certamente por nunca terem tido problemas para conseguir uma consulta médica em suas vidas, é preciso relembrar que os médicos cubanos atuam na floresta amazônica, aldeias indígenas, semiárido nordestino, municípios do G-100, quilombolas, no Vale do Ribeira e do Jequitinhonha e na periferia dos grandes munícipios brasileiros, inclusive os do ABCDMRR.

Lugares onde os médicos brasileiros não querem ir. Os argumentos utilizados são falácias corporativas. A maioria dos médicos brasileiros não quer e não sabe fazer atenção básica.
Foram formados apenas para serem especialistas. Não estão preocupados com os 30 milhões de brasileiros que ficarão sem nenhum atendimento médico.

Fingem querer uma carreira de Estado, mas não largarão seus consultórios particulares para se embrenharem Brasil afora. Nem ao menos em UBS na periferia das nossas cidades. O presidente eleito não alocará mais recursos para isso, como deixou claro esta semana. O orçamento aprovado para a saúde em 2019 será 1,8 bilhão de reais menor do que o de 2108, incapaz de recompor a inflação e manter o que hoje já precariamente funciona.

Acompanhei a chegada dos médicos cubanos como Ministro da Saúde. Todos tinham mais de 10 anos de formados e residência em medicina geral e comunitária. Mais de 50% tinha uma segunda especialização e 40% pelo menos mestrado. A maioria já tinham participado de pelo menos uma missão no exterior.

Bolsonaro, ao lançar desconfiança pública sobre a capacidade e veracidade da formação médica dos cubanos e impor mudanças de forma unilateral, autoritária e inconsequente, sem respeitar os canais de negociações estabelecidos e a soberania do país parceiro, implodiu o PMM e junto com ele o SUS e a esperança de milhões de brasileiros.

A abertura de novas escolas médicas, inclusive no ABCDMRR, só garantirá médicos brasileiros para suprir nossas necessidades a partir de 2026. Portanto, é inconsequente a postura do presidente eleito, que sequer tinha um plano alternativo.

Mais inconsequente ainda é a proposta do ex-deputado do DEM quase-indicado para Ministro da Saúde (que precisará explicar antes ao país os graves problemas em sua gestão na saúde em Campo Grande). Ele, que liderou os ataques ao PMM no Congresso Nacional nos últimos anos, sugere agora serviço médico militar obrigatório para os recém-formados. Gostaria de saber a opinião dos médicos que lideraram a oposição ao PMM quando seus filhos médicos tiverem que trabalhar por 3 anos em favelas, aldeias indígenas e quilombolas. Talvez mudem para Miami ou peçam aos colegas cubanos que voltem com urgência.

Bolsonaro e seus apoiadores podem até comemorar o fim do PMM, mas serão responsabilizados pelo aumento da mortalidade infantil, materna, por hipertensão, diabetes, doenças respiratórias e outros problemas sensíveis à atenção básica.

Isto é um crime contra quem mais precisa de saúde. É uma lástima terminar assim um programa reconhecido internacionalmente e que, como tem sido demonstrado em inúmeros pesquisas e teses, teve um impacto excepcional sobre a saúde do povo brasileiro.

Venceu a insensatez. Perde o Brasil. Só me resta pedir aos médicos e ao povo cubano desculpas e agradecer-lhes por tudo que fizeram por nossa gente.

Arthur Chioro é médico e professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e ex-ministro da Saúde

Fonte: Top Buzz

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