Futebol e Literatura – Por José Ribamar Mitoso

Escritor Josè Ribamar Mitoso

Escritor Josè Ribamar Mitoso
Escritor Josè Ribamar Mitoso

Estou começando escrever esta crônica apenas dois minutos após saber que o Neymar esta fora da copa. Estou soltando fogo! Portanto, leitor, se prepare… Pode parecer castigo divino, praga do demônio, erro de avaliação mercadológica, frustração sexual ou mesmo uma conspiração acertada do destino, mas ser escritor não é uma escolha realizada após um teste vocacional, uma mensagem transcendental, uma jogada do mercado ou um treinamento acadêmico.
Não adianta o sujeitinho cretino, dissimulado, ambicioso e covarde dizer para si mesmo “vou ser escritor”. Não vai. Neste caso, nem Deus, nem o Diabo, nem teste vocacional, nem estratégia mercadológica, nem curso acadêmico, nem a capacidade de submissão aos interesses da conveniência decidem nada.

escritor
Quem escolhe o escritor é a vida, comandante. Ora bolas… É a vida, que coloca certo sujeito desajustado, em certas situações não escolhidas por ele, mas que tornam esta vida original, única, e que, por isso, tornam este sujeito detentor de um conhecimento que ninguém mais pode ter, pois somente ele viveu aquela situação que a vida tramou.
É assim mesmo, e o sujeito tem apenas duas escolhas possíveis: narrar o que viveu como experiência única, e criar uma literatura original, tramada pela vida, ou desprezar o carimbo do destino e viver uma vida normal. Não há outras possibilidades.
É verdade que muitas pessoas bem intencionadas e sinceras tentam ser escritor pelos mesmos caminhos naturais que qualquer outro artista decide ser artista: ou por desajuste familiar, ou por dom divino, ou por não prestar para mais nada ou mesmo por um treinamento acadêmico. Neste caso, a opressão familiar, Deus, a incapacidade para a vida prática e mesmo a universidade podem perfeitamente justificar uma escolha tão incerta. Mas, em todo caso, quando a família , Deus ou um telurismo sonhador não ajudam, a Universidade oferece cursos para teatrólogo, músico, dançarino, cineasta, artes visuais, design… Mas não curso para escritor …
Não existe … Não tem jeito. Nem o mercado, com sua mão invisível e marota, pode criar um escritor. O mercado pode criar um bibelô, uma caricatura, um blefe, uma fama para vender uma mercadoria ou mesmo um oráculo forjado, divulgado como “gênio”, para agregar valor a uma commodities de papel e mentira chamada livro. Mas escritor, daquele que só a vida escolhe, nem o mercado com sua máquina de vender ilusões é capaz de forjar.
O sujeito pode até vender livros, sobretudo em terceira pessoa e sobre um passado pesquisado ou não, mas não é um escritor, ou pelo menos não um escritor escolhido pela vida. Pois escritor mesmo só a vida escolhe para revelar e desvelar as surpresas do tempo presente.
É fácil perceber a jogada. O sujeitinho nunca participou de nenhum movimento social e quer escrever sobre isto. Nunca se enraizou na luta de massa surda dos trabalhadores e quer escrever sobre isto. Nunca viveu a vida cotidiana de uma etnia ou um povo oprimido e quer escrever sobre isto. Quer escrever sobre aquilo que não vive e sempre da arquibancada: nunca jogando o jogo da vida dentro de campo e do lado fraco da luta cruenta da história. A mesma coisa acontece com escritores que escrevem sobre futebol sem nunca ter jogado uma pelada sequer. Não conhecem a trama e a tensão interna de um jogo de futebol, mesmo de brincadeira, e querem criar metáforas e imagens sobre o tema. Assim como nunca foram colocados em situações originais e querem decidir pela vida. Mas é a vida que escolhe… Lembram?

Colombiano que tirou Neymar da Copa diz que foi sem querer...
Colombiano que tirou Neymar da Copa diz que foi sem querer…

Como podem saber o que acontece dentro de campo estando na arquibancada? Um leitor esperto pode saber se um escritor foi escolhido pela vida quando escuta sobre o mesmo coitado frases assim : “Espero que não aconteça com você o que aconteceu com aquele escritor… Fulano de tal ficou doido e está internado até hoje… Sicrano suicidou-se…Beltrano , quando começaram a aparecer os sintomas da profissão, sumiu daqui e nunca mais voltou “. A vida é assim, comandante. O futebol também! Cuidado com a propaganda enganosa. Isto vale para o futebol.
A mesma coisa acontece com um gênio do futebol. Neymar é um gênio. Tem a característica que marca a genialidade do jogador: é um malabarista e dribla em alta velocidade com as duas pernas. As outras características, domínio de bola, lançamento, chute certeiro etc. definem os craques. Nunca os gênios. Pelé driblava em alta velocidade com as duas pernas. Garrincha fazia o mesmo com a perna esquerda, mas usava muito a perna direita em baixa velocidade.

De outro ângulo, para não deixar dúvidas...
De outro ângulo, para não deixar dúvidas…

Maradona, Robben, Messi e outros usam apenas uma perna. Neymar usa as duas. Só o Brasil é capaz de gerar um novo Pelé. Não se trata de raça, como escrevia Nélson Rodrigues, mesmo a nossa raça viralata-popular, como ele dizia. Trata-se de uma história de amor e identidade. Apenas a história cria pernas capazes de desafiar as leis da física. Como as pernas e os pés deste moleque Neymar. Mesmo que algum assassino quebre sua coluna e o torne inválido. Gênio é gênio.
Mas, eu estava escrevendo sobre o que mesmo? A copa e crônica de hoje perderam a graça!

* José Ribamar Mitoso Escritor é Dramaturgo, Professor da UFAM e colunista do portal Correio da Amazônia


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