Hipocrisia Natalina – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Penúltimo artigo antes do Natal, e não gosto de repetir artigos, mas achei o que escrevi em 2018, tão atual, que resolvi replica-lo, guardando aas devidas proporções de nomes e de algumas outras diferenças. Natal é a época que eu mais gosto, e ao longo destes vinte e dois anos escrevendo nos jornais de Manaus, todo final de ano, “baixa” o espírito natalino e começo a escrever sobre Natal, pessoas e paz. Este ano vai ser diferente, tecerei comentários sim, mas com a veia de crítico. Cada vez mais em nossa sociedade, o “espírito natalino” corresponde a uma manifestação artificial, banalizada e potencializada pelos interesses entrelaçados da mídia e do comércio.

O ritual de tempos passados cedeu lugar ao estereótipo e ao cumprimento de obrigações, em que a espontaneidade praticamente desapareceu. Somos forçados a ver e a ouvir pela televisão locutores de voz grave e pastosa repetindo frases retóricas, reproduzidas identicamente todos os anos. Somos forçados a receber votos de “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”, ou algo assim, por parte de cantores, de atores e de atrizes que nos iludem com uma intimidade inexistente. Há também a romaria em busca das “dádivas obrigatórias”, que representam um esforço físico adicional, empurrando-nos para os lotados templos de consumo, onde as pessoas cumprem automaticamente mais um dever em meio aos múltiplos deveres cotidianos.

Há ainda os jantares alimentarmente excessivos e afetivamente contraditórios. Concedo que os hinos à culinária propiciem o encontro com amigos e com outras pessoas interessantes que quase não vemos ao longo do ano. Mas, ao lado dessa circunstância positiva, somos obrigados a encontrar parentes com os quais nada temos a ver ou personagens estranhos que tentam nos envolver em conversas inoportunas ou triviais sobre transgênicos, o governo Bolsonaro, o governo Wilson, salário de secretários e inevitavelmente a falta de dinheiro em circulação. Tudo isso sem falar nos cartões protocolares, que me causam uma ponta de remorso.

Nunca os envios e fico com a impressão de que, em alguns casos, deveria fazê-lo. Então, indagariam as boas almas, você está renegando os princípios de tolerância e de fraternidade que presidem esses dias? Você está esquecendo o que o Natal representa para as crianças e os desvalidos? De modo nenhum. Estou criticando sim, a hipocrisia contida na manipulação de princípios que deveriam valer para o ano todo, por mais difícil que seja alcançar a sua realização.

Nosso mundo é dominado pelo dinheiro, governado pelas forças brutas do mercado, e caracterizado pela exagerada desigualdade na repartição da renda e da riqueza, pela ganância impiedosa e por estruturas poderosas que agem para que tudo continue assim. Quem não viu devia ter visto, e ainda acontece no momento que estamos vivendo, centenas de pessoas atrás de caminhões de lixo e de restos de supermercado, para pegar ossos e o que pudessem para se alimentar, cenas deprimentes. Daí por que, na comemoração do Natal, não há como deixar de desejar que, ao contrário, por algum milagre, prevaleçam em nosso meio os valores da concórdia, da solidariedade, da sobriedade, da justiça plena, do amor. Da paz sonhada, enfim, por todas as pessoas verdadeiramente de boa vontade. Nadando de braçada contra a corrente, paro um momento para pensar como me sentiria se fosse possível dormir e acordar em 2 de janeiro. Confesso que senti um vazio me levando à perda da capacidade argumentativa. Hora de deixá-la de lado e desejar a todos um batido, porém sincero e sem hipocrisia, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

Prometo no próximo artigo véspera de Natal ser menos azedo.

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