Ladrões do Estado – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Primeiro artigo do ano, e deveria como faço todo ano, desejar um Feliz Ano Novo aos leitores, o que farei no final deste artigo, mas não poderia ficar omisso com a indecência praticada pelo Congresso Nacional, ao aprovar o orçamento de 2022, colocando 17 bilhões para o orçamento secreto, RP9, emendas do relator, adotando-se o nome que quiser, enquanto milhões de brasileiros morrem de fome. Não há crimes desculpáveis, mas há delitos que nos fazem mais indignados. Os traficantes são traficantes de ofício.

Correm os seus riscos. Quase sempre morrem cedo, executados pela polícia e pelos rivais. Os assaltantes são os que mais trabalham, para não trabalhar. Sua atuação exige planejamento meticuloso e operações paramilitares. Mas os governantes e os altos servidores do Estado acrescentam à atividade criminosa outro suplemento de ignomínia: eles são traidores e agem protegidos por sua condição. Uma legislação mais honrada devia tratá-los assim. Como traidores da Pátria. Os candidatos corruptos se amparam em esquemas que combinam a demagogia, uma campanha atraente de propaganda e a articulação de financiadores, interessados na associação celerada. Enganado muitas vezes, o eleitor escolhe os candidatos que lhe parecem portadores, ao mesmo tempo, de competência e honestidade. Os que assim se elegem podem ser considerados traidores no mesmo nível dos que, em tempo de guerra, servem ao inimigo.

Quando o País tomou conhecimento da podridão do governo Collor, mediante a CPI que terminou com o “impeachment”, houve quem desculpasse o crime, com a alegação de que o achaque e o suborno fazem parte de nossa cultura, mas isso não é verdade. É conveniente – e triste – constatar que a concussão e a propina são costumes universais e antigos, mas diferentes nos métodos e na intensidade. Os países de formação mais recente, como os do Terceiro Mundo, foram pervertidos, desde a ocupação, pelos colonizadores, que traziam, com a cruz e a espada, seus próprios costumes morais. As crônicas de nosso segundo século – em que se destacam as objurgatórias do Padre Vieira – mostram como era comum a participação dos funcionários de El-Rei no desvio dos tributos.

Ressalve-se que eles apenas se beneficiavam, marginalmente, do saqueio administrado pela Metrópole. As “Cartas Chilenas”, de que se valeu Gonzaga, no século 18, são um bom testemunho do que era a corrupção na Capitania, naqueles anos em que se fermentava o sentimento de independência. Um dos fustigados pela pena do inconfidente foi o próprio traidor do movimento, Joaquim Silvério dos Reis, exator de impostos corrupto, e identificado, nos versos satíricos, como “Silveirim” (não confundir com Silveirinha ). O Estado tem essa natureza paradoxal. Criado para impor a justiça e defender a coisa pública, é também a mais vulnerável das instituições humanas. A necessidade de zelar pelos bens públicos determinou a criação, desde os primeiros tempos históricos, da instituição parlamentar. O sistema dos Três Poderes pretende ser a garantia da vigilância recíproca, na defesa da República. O grave é quando, em lugar da vigilância recíproca, se estabelece o conluio entre autoridades dos Três Poderes, como parece estar ocorrendo hoje.

Pergunta-se: Em que cadeia se encontram os “Anões do Orçamento”? Salvo pela morte misteriosa, Paulo César Farias deve hoje ser fantasma errante entre os bares de Paris, à beira do Lago do Paranoá, os bordeis de Maceió e a caixa-forte do Banco Central. Mas os seus cúmplices na arrecadação paralela, tendo voltado ao anonimato de onde os buscara Collor, gastam discretamente o dinheiro que nos foi roubado.

O aprofundamento das operações que se desenvolvem, é a grande oportunidade que não podemos perder. Todas as hesitações políticas podem ser creditadas (ou debitadas) à estratégia. Mas a Nação não aceitará que, a pretexto de obter-se maioria parlamentar, os ladrões venham a ser protegidos. Feliz Ano Novo!

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