“Meu pai é um monstro”, diz filha de João de Deus

Dalva Teixeira, filha de 49 anos de João de Deus - Foto: Divulgação: Jefferson Coppola/VEJA

Em apenas três dias, desde que o programa Conversa com Bial e o jornal O Globo revelaram as denúncias de mulheres que teriam sido sexualmente assediadas por João Teixeira de Faria, o João de Deus, de 77 anos, deu-se uma avalanche terrena contra o médium mais celebrado do Brasil.

O Ministério Público registrou o relato de mais de 300 vítimas, com roteiro parecido: elas foram abusadas dentro de uma sala da Casa de Dom Inácio de Loyola, o centro de atendimento de João de Deus na pequena cidade de Abadiânia, no interior de Goiás, local onde o guru diz curar os males de mais de 300 000 peregrinos anuais.

O algoz, prometendo oferecer “limpeza espiritual”, pedia que as presas tocassem em seu pênis, tocava-as, abordava-as pelas costas, e, de acordo com pelo menos uma acusação, teria cometido estupro com penetração. Dada a quantidade de queixas, criou-se uma força-­tarefa com cinco promotores e duas psicólogas para estimular as denúncias.

Mesmo com as denúncias, havia movimentação normal em Abadiânia (Evaristo Sa/AFP)

“Recebemos relatos de moradoras de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Paraná e Mato Grosso”, diz a promotora Patrícia Otoni, do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos de Goiás. Na quarta-­feira 12, o MP pediu a prisão preventiva do cirurgião espírita.

Ao reaparecer em Abadiânia, depois do escândalo, João de Deus foi recebido por pessoas que continuavam a reverenciar seus poderes. Uma senhora gritou contra os jornalistas que acompanhavam a cena: “Vocês terão câncer e voltarão todos aqui para se curar”. Suado e nervoso, o acusado chegou a fazer uma rápida peroração em defesa própria.

“Irmãos e minhas queridas irmãs, agradeço a Deus por estar aqui. Quero cumprir a lei brasileira. Estou nas mãos da Justiça”, disse. A depender da narrativa de Dalva Teixeira, filha de 49 anos de João de Deus, feita com exclusividade para VEJA, as dificuldades nos tribunais podem estar apenas começando. “Meu pai é um monstro”, afirma ela.

A VEJA, Dalva contou ter sido coagida, molestada e espancada pelo próprio pai. A violência começou quando ela tinha apenas 10 anos de idade. Num determinado dia, diz, João de Deus chegou em casa e pediu que a menina segurasse uma vela branca. Começava ali um ritual macabro. O médium mandou que ela fizesse uma marcação na vela para delimitar o tempo que duraria o “trabalho espiritual” que ele preparava para a filha.

“O pai vai ter de ficar com você até o fogo chegar nessa marca”, disse ele, segundo Dalva. Naquele momento, João de Deus a levou para dentro do quarto e se despiu. “(Ele) começou a passar o pênis no meu corpo todo. Eu falei: ‘Ai, tá me machucando’. E ele continuou em cima de mim.”

Foi o primeiro de uma série de abusos que se estenderiam por anos (os principais trechos da entrevista de Dalva aparecem no quadro abaixo). O relato é estarrecedor, com palavras simples, em português às vezes incorreto, mas revelações precisas. Os abusos foram se intensificando, cada vez mais violentos. Aconteciam em casa ou nos passeios a que os dois iam juntos. Aconteciam no carro, em quartos em residências de amigos. Prosseguiram durante quatro anos, até Dalva sair de casa, depois de uma cena de brutalidade.

Aos 14 anos, diz, ficou grávida de um funcionário de João de Deus. Viu no relacionamento uma chance de se livrar da agressividade paterna. Ao revelar a gravidez, o médium reagiu com violência. “Ele pisou na minha barriga. Ele dizia: ‘Eu vou te matar, eu vou te matar. Você está grávida’.” Por causa dessa surra, diz ela, perdeu o bebê, mas conseguiu se casar e sair de casa.

No entanto, os estigmas a marcariam pelo resto da vida. “Descontei tudo na bebida, na droga”, afirma. “Entrei nessa por desespero, mágoa, sofrimento, porque o pai que conheci com quase 10 anos não foi um pai. Foi a minha destruição.”

Confira a matéria completa na Revista Veja

Fonte: Veja

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