Morreu como viveu – por Flávio Lauria

Poeta Thiago de Mello – Foto: Divulgação

O poeta Thiago de Mello fez legítima uma máxima do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz que dizia: “Diz-me como morreste e te direi quem és. Se não morrermos como vivemos é porque realmente não foi nossa a vida que vivemos”. O poeta deixa, com sua vida digna, e com sua maneira corajosa de morrer, uma prova de como a morte é uma extensão da vida. Se foi uma vida de lutas e de coragem será, também, uma morte com luta e coragem. A sua, cidadão Thiago de Mello, assim o foi.

Uma das maneiras de se comprovar a importância das ideias de um pensador é se perceber que o mesmo tem palavras que continuam importantes e relevantes, a serem ditas a homens e mulheres que vivem e/ou viveram em épocas diferentes e até mesmo distantes. Mais ainda, se estes estiveram submetidos a processos históricos diversos, bem como a concepções de vida conflitantes. Estou convencido de que o poeta, ambientalista, escritor, foi um destes exemplos de pertinência que atravessa épocas distintas e contempla diferentes concepções de mundo. Além de ter sido nosso maior defensor da ecologia foi, também, um cidadão que nunca se furtou de opinar politicamente sobre as grandes questões nacionais. Thiago ousou dizer o que pensava. Assumiu com dignidade a máxima de que “viver é correr riscos”. Thiago era um pensador na mais radical e profunda acepção desta palavra. Ao morrer deixou vários livros publicados e centenas de trabalhos em revistas nacionais e internacionais. Foi agraciado com vários distinções e títulos acadêmicos e científicos pelo mundo afora. Contudo, costumava dizer que por ver a tortura ser empregada como método de interrogatório, escreveu o seu poema mais famoso, “Os Estatutos do Homem” era o que mais o envaidecia Na verdade sua morte aconteceu de forma coerente com a vida que levou. Uma vida de luta e de resistência aos autoritarismos de ação e de pensamento.

Foi um intransigente lutador da liberdade. Um crítico permanente das injustiças sociais de toda ordem sem cair, no entanto, na armadilha do discurso fácil e oportunista, tão em voga hoje em dia, tanto de intelectuais de seriedade duvidosa quanto de políticos demagógicos e oportunistas. La Rochefoucaudt disse certa vez que para o sol e para a morte os homens não conseguiam olhar de frente. Caro Thiago, você agora é também mais uma estrela. Um sol. Não poderemos, portanto, olhá-lo de frente. Porém, por força de suas ideias, talvez, possamos olhar para um mundo melhor.

Encerro o presente com o paragrafo único do Estatuto do Homem. “ Só uma coisa fica proibida: Amar sem amor”.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

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