O fruto da ignorância e a dessalinização no Nordeste

Dessalinização que Bolsonaro quer trazer de Israel existe no Nordeste desde 2004 - foto: FUP

Bolsonaro toma posse do cargo de Presidente esta terça-feira com fortes medidas de segurança. Além do choque direitista, o que se sabe é que este Brasil não será governado pelos melhores

Jair Bolsonaro anunciou que irá criar um projeto de dessalinização no Nordeste do Brasil em parceria com o governo de Israel e para isso irá enviar o futuro ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, a Israel para conhecer a tecnologia usada e trazê-la para o país.

De acordo com o presidente eleito do Brasil, já em janeiro serão construídas as primeiras instalações piloto “para retirar água salobra de poço, dessalinizar, armazenar e distribuir para agricultura familiar”.

Há década e meia que existem projetos em curso de dessalinização no Brasil, com tecnologia e experiência próprias. Só no Rio Grande do Norte existem 225 dessalinizadoras instaladas, a maioria delas em comunidades rurais, 69 delas instaladas com recursos ao programa federal Água Doce (criado em 2004 no governo de Lula da Silva), outras 20 instaladas ao abrigo do programa Água Para Todos (criado em 2011, no mandato de Dilma Rousseff).

Dessalinização que Bolsonaro quer trazer de Israel existe no Nordeste desde 2004 – foto: FUP

Além disso, a dessalinização anunciada por Bolsonaro como forma de fornecer água para irrigar os campos do Nordeste é posta em causa até pelo próprio país onde o presidente eleito foi buscar a ideia, Israel.

Dessalinizar água tem um custo muito elevado, cerca de 1 dólar por metro cúbico, daí que seja usada quase só para consumo humano e os israelitas recorram em 97% a água de esgoto tratada e à reutilização de água para irrigar os seus campos.

Este é apenas um exemplo do que será o governo de Bolsonaro: a descoberta da pólvora vezes e vezes sem conta como se os alquimistas chineses não a tivessem descoberto no século I quando procuravam o elixir da vida longa. Um misto de ignorância, arrogância e manipulação, eis o que se avizinha para o Brasil dos próximos anos.

Anunciar políticas que já existiam como se fossem novas, vender poções mágicas ao estilo banha da cobra, esquecer a História, torcer a verdade, gritar Eureca a toda a hora e acreditar que nestes tempos de falta de memória e de conhecimento o seu eleitorado se convença do inventivo que é este governo.

Mas seria difícil outro resultado quando a ignorância manipuladora assume o poder. O que foi a campanha política de Jair Bolsonaro se não uma construção de ilusões assente em notícias falsas, arrogância ignorante, agressividade verbal e exibição intolerante de testosterona política?

Dificilmente a manta de retalhos de lóbis empresariais e agrícolas, políticos de segunda ordem (no Brasil chamam-lhe baixo clero), um ministro das Finanças (Fazenda) ultraliberal e com agenda própria e um presidente profundamente ignorante (que se orgulha, tal como Trump, seu ídolo, de não ler livros, apenas jornais) poderá resultar noutra coisa que a extensão da campanha com outros meios.

Querer ver ouro na pirite bolsonariana é como confiar no fogo de Santelmo para nos aquecer durante o inverno. E o episódio da dessalinização não é mais do que um exemplo do que aí vem para o Brasil.

Se quisermos olhar para o exemplo de alienação em que se transformaram os Estados Unidos, vemos como outro presidente de olhar sobranceiro para o conhecimento desestabilizou as políticas interna e externa, a ponto de nada funcionar e o governo se reduza cada vez mais aos que dizem a Trump sim sem questionar e desapareçam os capazes de lhe dizer não e justificar porquê.

Temos um planeta que evoluiu tanto, que nos salvou de tantas doenças, que nos ajudou a compreender tantos mecanismos, completamente minado pela desconfiança no saber. Nunca soubemos tanto e nunca desconfiamos em igual quantidade desse saber.

Num enorme contrassenso, aqueles que decidem preferem fazê-lo sem ter acesso aos dados completos para tomar uma decisão informada. A guerra é demasiado importante para ser deixada nas mãos dos generais e porque só faz sentido se for o prolongamento da política por outros meios.

É mais fácil fazer a guerra que a paz, daí que sejam precisos políticos com visão, instinto, conhecimento do mundo para decidir da paz e da guerra.

Bolsonaro, como outros políticos populistas de hoje e de ontem, introduz a belicosidade na vida quotidiana – tal como diz a fórmula vendida pelo guru de Trump e da extrema-direita atual, Steve Bannon -, porque, lá está, é mais fácil vender uma vazia visão do mundo quando se enchem o horizonte de inimigos.

Essa guerra ao inimigo vermelho, que nas palavras de Bolsonaro e dos seus acólitos está aí invadindo o Brasil, só demonstra que não interessa a verdade, a realidade, os factos, desde que se possa instigar a ignorância com o instinto do medo.

Aquilo que o Brasil conseguiu – por erros próprios do PT e retratos manipulados, extrapolados, manietados por essa extrema-direita que acumulou ressentimento durante anos de marginalização – foi eleger para o poder não os melhores e mais bem preparados, mas muitos dos seus mais ressabiados políticos e técnicos. É como se passados tantos séculos, as Terras de Vera Cruz se tivessem transformado no Inferno de Bera Cruz.

O Pensador

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