O Pavão Misterioso: o cordel e a canção – por Isabela Abes Casaca


Pavão Misterioso (Ilustração de Jô Oliveira)
Pavão Misterioso (Ilustração de Jô Oliveira)

A expressão literária de cordel tem suas raízes no Renascimento Cultural Lusitano, lá pelos séculos quinze e dezesseis tal forma de literatura foi popularizada, graças à invenção de Johannes Gutenberg, a prensa móvel, por meio desta, foi possível a impressão em maior escala dos relatos tradicionalmente orais feitos pelos trovadores medievais. O nome cordel está ligado à maneira de comercialização desses folhetos, onde eram pendurados em cordões, nomeados de cordéis.

Os lusitanos durante a colonização trouxeram em seu balaio e coração esta cultura, enraizando-a também aqui dentre os brasileiros, na metade do século dezenove começaram as impressões de folhetos nacionais, com suas características e temas próprios, que abrangem fatos cotidianos, façanhas históricas, lendas, folclore, temas religiosos, assim por diante, não há limites para a criação de temas para os folhetos, qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um cordelista inspirado.

Cordel O Romance do Pavão Misterioso (José Camelo)
Cordel O Romance do Pavão Misterioso (José Camelo)

O nosso cordel mais clássico e famoso é o Romance do Pavão Misterioso, um folheto quase centenário escrito por José Camelo de Melo Rezende no final dos anos vinte, a narrativa repercutiu tanto que foi reeditada incontáveis vezes, além de servir de inspiração para peça de teatro, canção e filme de animação.

A história começa contando sobre dois irmãos turcos, João Batista e Evangelista, filhos de um
abastado pai capitalista, quando o patriarca morre, ambos herdam as posses, então o mais velho resolve sair pelo mundo, o caçula concorda perfeitamente com o irmão, não fazendo nenhuma oposição. Depois de muito viajar, João Batista vai na Grécia desembarcar, lá vislumbra ao longe uma bela donzela na sacada de uma janela, impressionado compra um retrato e leva de presente para o irmão.

Ao retornar a Turquia, João entrega o retrato a Evangelista, este se apaixona perdidamente pela moça, decidindo ir até o país dos gregos desposar a donzela, de fato, isto ele faz. Acontece que ela era filha de um conde muito ciumento e possessivo, que não permitia que nenhum homem se aproximasse. Evangelista sagazmente procura um inventor, de nome Edmundo, pede-lhe que construa um invento que possibilite encontrar com sua amada, cujo nome era Creuza.

Edmundo então constrói uma engenhosidade voadora em forma de pavão, Evangelista visita a donzela por três noites a fim de convencê-la a casar-se com ele, ao final da terceira noite este consegue seu intento, ambos então fogem para a Turquia voando no pavão misterioso, fugindo do conde ciumento e lá se casam. Em resumo e essência a história é essa. (Aqueles que desejarem ler podem acessar este site que possui o acervo do poeta: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/

JoseCamelo/joseCamelo_acervo.html)
A narrativa tem todos os elementos clássicos: um herói, uma donzela, um antagonista, um amor e um artefato “mágico”, porém nem por isto caiu no lugar-comum, o enredo é envolvente, a maneira que as rimas são construídas é de tamanha fluidez e criatividade, prendem a atenção do leitor, o Romance do Pavão Misterioso é uma obra de poesia sem igual.

Inspirado por esta obra ímpar o músico cearense, José Ednardo Soares Costa Sousa, compôs magistralmente a música Pavão Mysteriozo. Esta possui diversas regravações: uma orquestrada por Paul Mauriat, pelo grupo Inti-Aymará, pelo grupo Nacha, por Elba Ramalho, Ney Matogrosso, Fernanda Takai, por bandas de rock e maracatu e assim por diante. A composição repercutiu de tal maneira que é até considerada sagrada pelos índios do Xingu e utilizada em seus rituais religiosos.

Muito embora a canção seja permeada por diversas referencias ao cordel, a temática interpretativa foge, ou melhor, transcende ao que é tratado no folheto. O pavão na linguagem dos símbolos é considerado o pássaro do paraíso, o “animal de cem olhos”, simbolizando a visão de Deus pela alma, a supervisão divina, é isto que a composição musical aborda.

LP O Romance do Pavão Misterioso (Ednardo).
LP O Romance do Pavão Misterioso (Ednardo).

“Pavão misterioso, pássaro formoso, tudo é mistério nesse teu voar, ah, se eu corresse assim, tantos céus assim, muita história eu tinha prá contar;”
“Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque me guarda moleque de eterno brincar, me poupa do vexame de morrer tão moço, muita coisa ainda quero olhar;”
“Pavão misterioso, meu pássaro formoso, no escuro desta noite me ajuda a cantar, derrama essas faíscas, despeja esse trovão, desmancha isso tudo que não é certo não;”
“Pavão misterioso, pássaro formoso, um conde raivoso não tarda a chegar, não temas minha O eu lírico anuncia do quão misterioso e poderoso é o que o pavão representa, transcendendo a compreensão comum, se compreendesse tal poder muito conhecimento teria.
Há a suplica para que o guarde inocente, sem perder a esperança, o eu lírico roga que possa viver longos anos de vida para adquirir conhecimento.
Novamente há um pedido, desta vez se pede auxilio para que consiga vencer os momentos adversos, seguidamente roga por uma intervenção a fim de desfazer aquilo que não é correto.
O eu lírico finaliza avisando, que um opressor está para chegar e, apesar da temerosidade, donzela, nossa sorte nessa guerra, eles são muitos, mas não podem voar.”
ainda há esperança, pois a capacidade do opressor não é onipotente como o que o pavão imboliza.

Tanto o cordel, quanto a canção são duas obras de grande relevância em nossa cultura, conhecê-las e compreendê-las nos enriquece, além de despertar a vontade de conhecer mais e mais as expressões culturais nacionais. Fica aqui um texto prestigiando o cordel e a música.

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