País burro – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Dentre estudantes de 32 países, testados em sua compreensão de leitura, os brasileiros tiraram o último lugar. Não o penúltimo ou o antepenúltimo. O último. Com uma das maiores redes de ensino público do universo, com uma quantidade impressionante de professores per capita, com investimentos maciços do governo e o esforço conjugado de milhares de ONGs e empresas milionárias empenhadas soi disant em “elevar o nível” da nossa educação, o Brasil é, hoje mais que nunca, um país de analfabetos funcionais.

Nada do que saiu impresso nos últimos dias pode dar, como esse fato alarmante, uma ideia da verdadeira situação do Brasil no mundo. Por que uma notícia tão significativa – a mais importante da semana, sob certos aspectos – suscita na mídia e nos meios ditos intelectuais uma quantidade tão escassa de comentários? Por que as poucas reações que se fazem discretamente ouvir se limitam às lamentações convencionais de sempre, quando não a desculpas de ocasião? A resposta é simples. A estupidez da nossa classe estudantil não se explica por causas menores, de ordem administrativa ou econômica, nem por curiosas coincidências. Ela não é um fato isolado. Ela reflete o estrago geral da cultura brasileira Existe os efeitos de uma devastadora “revolução cultural”, que, iniciada nos anos 70 e empenhada em reduzir a rede de ensino e todas as instituições de cultura a instrumentos do mais maquiavélico oportunismo político de todos os tempos, estampa agora diante de nós o seu abjeto resultado. Não se pode manipular a inteligência humana sem engessá-la, imobilizá-la e atrofiá-la.

Vinte anos atrás eu trabalhava como professor de Centros Universitários, e publicava artigos contra a massificação de ementas, ementas que eram de minha época de Universidade, se repetiam nos programas de cursos de terceiro grau, mas os intelectuais ativistas faziam críticas ferozes ao que chamavam “educação tradicional” e infundiam nas professorinhas uma confiança ilimitada nos novos modelos que, a seu ver, dariam aos jovens brasileiros a educação ideal. Esses modelos traziam algo das ideias de Jean Piaget, mas eram inspirados sobretudo nos ídolos pedagógicos do esquerdismo militante: Paulo Freire, Demerval Saviani. Sinceramente: eu lia aquela porcaria toda e previa uma catástrofe. Hoje a catástrofe está aí, mas ela é tão profunda que já não pode tomar consciência de si mesma. Aquelas entusiasmadas professorinhas que imaginavam fazer uma revolução por meio de seus alunos, convertidos em “agentes de transformação social”, foram elas próprias transformadas no curso do processo: já estão burras demais para atinar com a conexão de causa e efeito. Por isto a revelação brutal dos resultados da mutação idiotizante não suscita nenhum debate sério, nenhuma tomada de consciência, nenhuma corajosa admissão do erro fundamental.

As professorinhas não apenas esqueceram o que sabiam: esqueceram que esqueceram. Estão amortecidas e estupidificadas pelo seu próprio discurso. E a pandemia fez dos alunos nos escandalosos cursos de Ensino a Distância, emburrecerem mais. Há uma queda mundial do nível de inteligência, e o Brasil está na vanguarda do abismo. Vejam só caros leitores, o fenômeno espantoso para as ultimas vagas abertas na Academia Brasileira de Letras. Gosto de Fernanda Montenegro como atriz e de Gilberto Gil como musico, letrista e cantor, mas não há entre eles um cabedal de conhecimentos como escritores, e ninguém notou a diferença.

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