Políticos e prostitutas (parte I) – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Divido o presente artigo em partes, por falta de espaço e para que a leitura não fique enfadonha aos leitores. É comum ouvir dizer que nossos inefáveis representantes do povo constituem o retrato fiel do povo brasileiro, seu verdadeiro espelho. Não é tanto assim. Basta pensar naqueles espelhos deformantes, côncavos ou convexos, que maltratam grotescamente a figura humana.

Pois bem, nossas Casas Legislativas costumam ser o espelho deformante da sociedade brasileira. O povo é e sempre foi melhor do que seus trêfegos representantes nas conchas côncava e convexa das Câmaras Municipais e Federal, das Assembléias Legislativas e do Senado. Não que constituam uma categoria especialmente corrupta, não é por aí.

A corruptibilidade do político está inserida num quadro maior que se poderia denominar de inércia constitutiva. A categoria política, não somente no Brasil, como em todos os tempos e lugares, fornece expressão material à lei física da inércia, assim formulada nos dicionários: “Propriedade que têm os corpos de persistir no estado de repouso ou de movimento enquanto não intervém uma força que altere esse estado.” Que ninguém acuse os políticos de inoperância e de acomodação.

Esta disposição estática não passa de um aspecto isolado da inércia. Se entrar em ação uma força vinda de fora, veremos que o repouso costumeiro dos políticos dará lugar a uma atividade impressionante. Esta “força vinda de fora” se manifesta como pressão, que em última instância vem a ser a pressão da opinião pública, através dos meios de comunicação.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

A questão de saber se, no Brasil, não existem partidos doutrinariamente coerentes porque não há fidelidade partidária, ou se esta não existe porque falta aquela coerência, pode ser tão insolúvel quanto a velha questão da precedência entre o ovo e a galinha. Uma coisa, porém, é certa. Regra geral – porque há sempre as honrosas exceções de praxe, que confirmam a regra -, os ilustres integrantes da classe política, que exercem mandatos conferidos pelo voto popular, têm a plena convicção de que o mandato apenas lhes pertence, independendo assim, inteiramente, da vontade política dos que o outorgaram.

Sabe-se que muitos candidatos encomendam pesquisas às vésperas das eleições, para saber como se situam na preferência dos eleitores de sua região, de seu núcleo social ou de seu colégio eleitoral. Mas quantos serão os que encomendam pesquisas, às vésperas dos prazos finais de filiação partidária, para saber se os que os elegeram desejam ou não que mudem de partido – e, em caso afirmativo, qual o partido preferido por seus eleitores?

O que se vê, na verdade, é a absoluta autonomia com que os detentores de mandato popular participam de uma movimentada dança das cadeiras, ou troca-troca partidário, todas as vezes que se aproximam os períodos eleitorais e, em consequência, os prazos legais de filiação.

Tais mudanças podem decorrer da conquista de novos apoios ou da perda de antigos, de alterações de “cacifes” eleitorais – próprios ou de adversários -, de projetos de conquista de mandatos mais ambiciosos ou de quaisquer vantagens oferecidas pelos partidos que se disponham a cooptar políticos concorrentes. Do que não decorrem, certamente, é da vontade dos que, na eleição anterior, escolheram o ora cooptado – ou vira-casaca. Continua no próximo artigo.

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