Rapinagem e cinismo (Por Paulo Figueiredo)

Advogado Paulo Figueiredo(AM)

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Impressiona o cinismo do metalúrgico Lula da Silva. Lá atrás, quando da eclosão do escândalo do mensalão, o dito-cujo, nos jardins da embaixada do Brasil em Paris, declarou-se traído e vilipendiado, com a compra de deputados no Congresso Nacional, pelo PT e seus mais notórios dirigentes. Em seguida, ao admitir apenas e tão somente a existência de Caixa 2, chegou a dizer que se todo mundo fazia, porque seu partido não faria. Tentava atenuar a gravidade dos crimes cometidos por seus companheiros de lutas e ideais, numa manobra claramente diversionista.

Quebrou a cara, o mensalão foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal e o estado-maior do PT terminou na penitenciária da Papuda em Brasília. Ainda que seus próceres já estejam em casa, pela benevolência do atual relator do processo no STF, foram condenados e em princípio estarão para sempre alijados da vida pública.

Vencido o mensalão, que país, hein!, eis que na sequência aparece o petrolão, o maior assalto aos cofres públicos na história da República. Não creio que se possa estimar com segurança os valores do rombo ao erário, tão complexo o imbróglio e tão esgalhadas as ações criminosas. Há quem entenda que a petrorroubalheira pode alcançar cifra bem superior a R$ 20 bilhões, tomando-se como ponto de partida as importâncias reveladas em delação premiada pelos delinquentes.

As acusações feitas pelos delatores ao PT são frontais. Em linha direta, como no caso do mensalão, mais um tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, que nega qualquer prática delituosa, exatamente como o fez o caixa anterior da legenda, Delúbio Soares, no período em que gerenciou as finanças partidárias. Mais grave é que boa parte da grana enlameada do petrolão foi parar nas contas da campanha presidencial lulopetista, tudo segundo depoimento insuspeito dos delatores amparados em legislação específica.

Por que insuspeito, haverão de indagar os leitores? A resposta é simples: encontram-se impedidos de faltar à verdade, ao longo de todo o processo, sob pena de perderem os benefícios da lei, que lhes permitirá receber uma sanção com penas mais leves, com redução de um a dois terços do tempo cominado ao delito. Apanhados em qualquer deslize factual, retornam à situação anterior, intensificando-se então o crime cometido, porquanto tornado induvidoso, frente às suas próprias declarações ou confissões, com o reconhecimento explícito da prática criminosa. De mais a mais, o sistema de delação premiada não tolera informações que não possam ser comprovadas contra os coautores ou partícipes do crime e na recuperação total ou parcial do produto da ação condenável.

Agora, na petrorroubalheira como no escândalo do mensalão, a responsável como sempre pela condenação dos criminosos é a mídia, que julga antes do Supremo Tribunal Federal, segundo o metalúrgico Lula da Silva, em pronunciamento em reunião do PT em Brasília. Reportando-se aos dois eventos criminosos, Lula disse que “quando esse processo chegar na Suprema Corte, que o ministro Teori for analisar a delação premiada, criada por nós (por quem, cara pálida? – a Lei 9.807/1999 foi sancionada pelo presidente Fernando Henrique), a imprensa já condenou os nossos companheiros ou já condenou aqueles que não são companheiros e estão sendo citados. Não importa que não seja a verdade. É preciso dizer que é o PT”, para concluir que “os companheiros que foram julgados (no mensalão) já estavam condenados”.

Convenhamos, ou o metalúrgico vive no mundo da lua ou leva a existência mergulhado no mais escrachado cinismo. A primeira hipótese é inadmissível, pois sempre esteve antenado em tudo o que acontece à sua volta, embora insista em dizer que nunca sabe de nada ou sequer viu nada. A segunda, no entanto, cabe-lhe como uma luva, na acepção de Oscar Wilde, como o homem que conhece o preço de tudo e o valor de nada. Ou, segundo as reflexões de Ortega Y Gasset, como parasita da civilização, vive de negá-la, ciente de que jamais lhe faltará, mesmo insurgindo-se contra a realidade incontestável.

Os fatos aconteceram e continuam presentes, independente da mídia e de seus jornalistas, que jamais fabricaram uma única notícia a respeito de qualquer escândalo. Cumprem seu papel e sua missão histórica, informam e oxigenam a liberdade, sem a qual os regimes plurais, abertos e democráticos jamais se consolidarão. Se não tivesse havido a explosão da rapinagem, que fere de morte os brios do Brasil e de seu povo, no âmbito interno e no conjunto das nações civilizadas, seguiríamos construindo o nosso futuro, sem as máculas que agora enxovalham a nacionalidade.(Paulo Figueiredo, advogado, escritor, comentarista político –  [email protected])

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