Ressignificar – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Sempre gostei dessa palavra, principalmente quando ela quer dizer dar novo sentido a algo já existente. Há momentos na vida em que é preciso começar tudo do zero. Em contrapartida, há outros nos quais basta um olhar apurado para ressignificar aquilo que já existe e ganhar novos sentidos e possibilidades.

Em meio a várias reflexões sobre o impacto de uma pandemia (totalmente inédita em minha geração) e os resultados emocionais secundários a ela na população geral, me foi recomendado uma leitura bastante interessante, que veio a complementar e ampliar o leque de possibilidades e reações manifestadas no atual momento. Falo por mim, vivo sozinho em um apartamento sem cachorro e sem ninguém para conversar, não saio, e aproveito para ler e ver filmes. Dentro de leituras que fiz sobre essa pandemia me chamou atenção o texto de Jennifer Cleland, nomeado “Resilience or resistance: A personal responsável pelo COVID-19”, aborda a escrita autobiográfica com um dos recursos para expor e validar vivências incompreensíveis a nível consciente, ampliando o contato do autor e do leitor com conteúdos significativos, porém não racionalizados durante a vivência em si.

A partir desta proposta, seria possível entrar em contato com nossos próprios mecanismos de defesa, e olhar de frente pensamentos, comportamentos e decisões durante essa fase tão caótica, de modo mais refletido e coerente, ressignificando e redirecionando nossas ações. Todo esse processo vem de encontro à realidade vivida por cada um de nós desde o início da pandemia de Covid-19, que tirou da zona de conforto a sociedade dos cinco continentes do planeta. Apesar de todos os mecanismos de defesa disponíveis em nossa psiqué, neste momento é totalmente impossível não se sentir atingido ou influenciado por uma situação que coloca em cheque nossa saúde física, mental, economia mundial e sobrevivência.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Abordando de modo mais simples e minucioso as reações psíquicas neste cenário, inicialmente poderíamos citar a negação, mecanismo de defesa básico e primitivo presente em qualquer circunstância que ameace a homeostase mental do ser humano. A própria autora do texto supracitado, menciona seu comportamento inicialmente evitativo, de não buscar e nem se apropriar de informações a respeito da situação mundial. Tal comportamento inconsciente advém de nossa necessidade de manter o distanciamento emocional de uma situação ameaçadora.

É como desligássemos a televisão na hora que vai passar o numero de infectados e de óbitos naquele dia e o acumulado. Sabemos que ela existe, mas nos mantemos distantes afetivamente para que não se torne de fato “real” e presente em nossas vidas. Infelizmente, a negação, assim como a esquiva não conseguem perdurar por longos períodos, ainda mais quando somos alvejados insistentemente com informações sobre o fato que se tenta ignorar. Tanto a imposição social do assunto como as consequências ocasionadas por ele, confrontam em tempo real os indivíduos, exigindo condutas mais racionais e adaptativas. No caso dos profissionais da saúde, de modo ainda mais pessoal, a negação deixa de se sustentar, a partir do momento que algum evento pessoalmente significativo confronta a realidade. Um bom exemplo, é a chegada dos primeiros pacientes, a morte decorrente da doença, a internação de colegas de trabalho contaminados com o vírus… enfim, não há como se sustentar na negação quando os efeitos da realidade estão por toda parte.O caminho psíquico mais comum quando a negação não nos é mais possível, é a revolta. Entramos em contato com a realidade imposta, porém de modo a nos enraivecer frente às perdas secundárias a ela. Perdemos a liberdade, a autonomia, a segurança fictícia que fantasiamos durante toda a vida. Perdemos o equilíbrio financeiro independentemente de nossa condição social, perdemos nossa “certeza” ilusória de controlar nossas próprias vidas, perdemos inclusive a zona de conforto de nossas funções profissionais, atualmente adaptadas à pandemia. A revolta, é a nossa primeira constatação da realidade imposta, e de suas consequências iniciais em nossas vidas. É o período inicial de quebra da homeostase habitual, que nos leva a enxergar predominantemente o aspecto negativo, as perdas, incitando ainda sentimentos de culpa e medo, externalizados de modo irrefletido e pouco adaptativo. Mais a frente, em um período mais maduro do processo de assimilação e enfrentamento da realidade, a revolta vai perdendo sua utilidade. O extravasamento de emoções negativas e raiva já não aliviam mais. A consciência dos fatos vai tornando-se mais plena, e abre-se espaço para a vivência emocional do caos. Chega-se o tempo de introspecção, manifestação da tristeza, vivência de humor mais deprimido, e isso é confundido por muitas pessoas com quadros de depressão ou desistência. A fase depressiva na vivência da Covid-19, não só é esperada, como necessária. Entretanto é essencial compreender que cada um de nós a viverá por um motivo, e com uma visão de problema diferente.

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