Saúde dilacerada – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Num país onde a corrupção atinge índices alarmantes, não é de se estranhar que os serviços essenciais de responsabilidade do governo: saúde, educação, moradia e transporte sejam desprezados.

É mais fácil dar mesada do que educar, cuidar. Quem recebe mesada cala. Aplaude o mantenedor quando convocado. Quem é educado exige seus direitos, exerce sua cidadania. O povo brasileiro tem sido tolerante demais com quem os tem traído, e, quando alguém se deixa trair por muito tempo acaba merecendo o desprezo do traidor. Assim tem sido. A saúde é um direito de todo cidadão brasileiro e é um dever do Estado, segundo nossa Constituição.

Aí nem queria falar sobre as mentiras deslavadas do ex Ministro General na CPI da COVID, é de deixar qualquer um com nojo da subserviência ao Presidente. Garanto que se o STF não tivesse dado o Habeas Corpus, o ex ministro sairia preso, embora o STF tenha dado com a ressalva da compulsoriedade do comparecimento e a obrigação de não faltar com a verdade em relação às perguntas que envolvam fatos e condutas relativas a terceiros.

Lembram da CPMF?. Nesse caso, o cidadão brasileiro fez e faz sua parte acreditando, até agora, na provisoriedade do ônus que aceitou. Até porque sua carga tributária é uma das maiores do mundo. A continuação do caos na saúde tem, portanto, um único responsável: o governo, não só aquele que comanda o País, mas também aqueles que administram os Estados membros da nossa federação.

O grito dos médicos responsáveis pelos atendimentos em hospitais públicos significa o desespero de quem convive com pacientes acumulados nos corredores desses hospitais, alas intransitáveis, equipamentos quebrados, descasos com a dor do outro. Nenhuma privacidade, muita desumanidade.

Como falar em dignidade humana quando essas pessoas são tratadas como números, estatísticas de morbimortalidade de doenças diversas? Estamos observando, passivamente, pessoas que, vítimas das mais diversas formas de violência urbana, se tornaram, também, vítimas da violência institucional.

Para amenizar a relação vertical, assimétrica da saúde pública no Brasil, onde o paciente é o agente passivo, que aceita tudo sem reclamar, em alguns hospitais, por iniciativa dos próprios médicos, foram criadas comissões de humanização que têm como principal função tornar a relação profissional/paciente menos conflituosa e mais harmônica.

Mas, como resolver o problema da humanização, se o próprio profissional não é tratado com a dignidade com a qual qualquer profissional deve ser. Ele, muitas vezes trabalha na condição limite, talvez além do limite. Falta de materiais, medicamentos, leitos, instrumentos indispensáveis etc. Nessas condições, a vulnerabilidade do paciente se estende ao próprio médico.

Na tática das retóricas governamentais, quem grita e chama a atenção para o caos é tido como responsável por ele. Quando alguém esperneia diante das injustiças cometidas, como os médicos o fazem agora, os governantes omissos tentam convencer a sociedade de que eles é que estão prejudicando o povo, quando, de fato, eles estão impedindo que o caos se perpetue.

No Brasil há uma cultura estranha, normalmente quem, em qualquer situação brava pelos seus direitos, ou de terceiros, é tido como aquele que está incomodando, no sentido de perturbando. Incomodar, muitas vezes é algo positivo: tirar da acomodação. O brasileiro “bonzinho” é um sujeito passivo, inoperante, conivente. O que a gente precisa para melhorar a situação da saúde – todos sabem, mas parece ser difícil de concretizar com os políticos que temos – é de uma política eficiente para a educação, saneamento básico, moradia.

Quantos mais eficazes forem as políticas traçadas para essas áreas, menos hospitais serão necessários. Entretanto, o que temos são palavras, palavras e palavras e, em alguns casos, até mesmo mal pronunciadas. O novo paradigma ético do século 21, a bioética, preocupa-se com o cuidar, com a responsabilidade pela vida em geral, pelas gerações futuras, enfim, com a proteção à dignidade da pessoa humana. Mas isso, não é meta nem preocupação do governo.

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