Sem ter para onde ir, só resta a Moro uma suposta vaga no STF

Presidente da República Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro - Foto: José Cruz/Agência Brasil"

Essa história da indicação de Sérgio Moro para o Supremo Tribunal Federal está muito mal contada. Alguém está mentindo nessa história: será o presidente da República, o ministro da Justiça ou ambos? Só resta uma hipótese que não seja uma dessas três: eles charfudam pelo lamaçal das meias-verdades a tal ponto que é tudo mentira de todo modo. Colocar lado a lado a versão de cada um ajuda a esclarecer.


Jair Bolsonaro, no domingo (12), em entrevista a uma rádio, produziu várias frases sobre o assunto. Portanto, não foi um “escorregão”. Bolsonaro falou e reafirmou. O que ele disse:

“A primeira vaga que tiver [no STF], eu tenho esse compromisso com o Moro [de indicá-lo], e pretendo… pretendo não. Se Deus quiser, nós cumpriremos esse compromisso”.

“Fiz um compromisso com ele, porque ele abriu mão de 22 anos de magistratura. Eu falei: ‘A primeira vaga que estiver lá está a sua disposição'”.

“Então, o Moro, eu vou honrar esse compromisso com ele”.

Presidente da República Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro – Foto: José Cruz/Agência Brasil”

Nesta segunda-feira (13) Moro, tentou se explicar em uma palestra em Curitiba. Visivelmente desconfortável diante da péssima repercussão da notícia do negócio de um ministério por uma vaga no STF, Moro disse, sem mencionar o nome de Bolsonaro e com seu português quase tão canhestro quanto o do chefe: “Ele [Bolsonaro] foi eleito, fez o convite publicamente, fui até a casa dele no Rio de Janeiro. Nós conversamos e nós, mais uma vez publicamente, eu não estabeleci nenhuma condição. Não vou receber convite para ser ministro e estabelecer condições sobre circunstâncias do futuro que não se pode controlar”.

A primeira dificuldade com a explicação de Moro aparece com a expressão “mais uma vez publicamente”. A que ele se refere? A afirmação aparece depois de uma frase sobre sobre o convite de Bolsonaro para que ele assumisse o Ministério, em dezembro último: “Nós conversamos e nós, mais uma vez publicamente, eu não estabeleci nenhuma condição”. Ora, se a conversa entre os dois para o convite ao Ministério foi fechado, por que a expressão “mais uma vez publicamente”? Por que o ex-juiz faz tal afirmação antecedida por um “e nós”, se não houve qualquer entrevista coletiva depois do convite? “(…) e nós, mais uma vez publicamente” -além de quase incompreensível, a construção parece mais um pedido de socorro que uma explicação.

Moro disse não ter estabelecido qualquer condição para assumir o cargo. Aqui há uma malandragem retórica. Porque Bolsonaro não havia dito na véspera que houver uma condição do ex-juiz. Mas que ele firmara “um compromisso”. Se isto foi feito, porque o silêncio de Moro. Em pouco mais de meia dúzia de frases, Bolsonaro usou a palavra “compromisso” quatro vezes, sendo que em uma delas afirmou que irá “honrar esse compromisso com ele”. São frases fortes, que vinculam o interlocutor, comprometem-no com o tema e o pacto selado. Bolsonaro teria mentido?

Pode ser que o presidente tenha mentido. Pode ser que ambos tenham mentido. A construção narrativa de Moro, um amontoado tatitibate desonjuntado, não o ajuda Mas como Bolsonaro é, como já ficou claro, alguém que falta com a verdade de maneira contumaz e deslavada, difícil saber. Um dos dois está mentindo. Ou os dois.

Fonte: Brasil247

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1 COMENTÁRIO

  1. O presidente diz uma coisa, e horas depois vem o Moro e desmente.

    Saber qual dos dois mentiu, só o tempo dirá !

    O fato é que, para quem acompanha o dia a dia da Política nacional, a prometida indicação de Sérgio Moro ao STF pelo presidente Bolsonaro não é nenhuma surpresa. Parece mesmo que já estava tudo combinado antes “com o Supremo com tudo”.

    Mas essa expectativa do Moro de se tornar ministro do Supremo poderá ser frustrada se vier a ser aprovado o pacote anticorrupção proposto pela Ong Transparência Internacional e pela FGV. Uma das medidas desse pacote anticorrupção proíbe a indicação ao STF de quem tenha, nos quatro anos anteriores, “ocupado cargo de ministro de Estado”, como é o caso do Moro.

    Diante das derrotas e dissabores que amargou até aqui no seu cargo político, é de supor que, a essa altura, o ministro Moro já esteja por demais arrependido de ter deixado o seu cargo de juiz, onde reinava absoluto como um verdadeiro deus, para se tornar agora alvo de suspeitas e zombarias nas redes sociais de que teria supostamente negociado um ministério por uma vaga no STF.

    Todos sabem que Bolsonaro só se elegeu porque Lula foi feito preso político pelo ex-juiz Moro, que o condenou sem provas para que não concorresse ao pleito presidencial e, mais uma vez, fosse eleito presidente do Brasil.

    Como já dizia Abraham Lincoln:

    “Pode-se enganar a todos por algum tempo;
    Pode-se enganar alguns por todo o tempo;
    Mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

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