A tampa da caneta – Por Valdir Fachini

Articulista Valdir Fachini (SP)

Ontem eu cheguei em casa, meio assim, mais pra lá do que pra cá, confesso que tinha tomado alguns rabo de galos no boteco do Troca letra (o Troca letra não é japonês não, mas ele troca o ele pelo erre ao contrário do Cebolinha), então eu estava lá com uns camaradas jogando conversa fora, falando das gostosas do bairro, (ninguém falou da minha mulher, não sei se foi por respeito ou se a gostosura dela há muito tempo já se foi), conversa vai e vem, o Troca põe mais um copo no balcão, eu tomo e o papo continua.

Então o assunto foi ficando repetitivo, sem pé e sem cabeça, Chitãozinho e Xororó já estavam cantando em alemão, aí eu resolvi e fui embora.

Quando abri o portão, (que não foi fácil), notei alguma coisa estranha. As luzes estavam apagadas, como não era de costume, silêncio total, será que deu um piripaque na minha mulher?

Abri a porta, acendi a luz, tava tudo arrumado, a sala tava um brinco, só meu violão que estava fora da capa, mas acho que fui eu mesmo que deixei, na mesa de centro um bilhete que com muito custo consegui ler – “decidi, estou te deixando, pode ser que um dia eu volte, se você voltar a ser o que era antes, quando seus amigos forem menos importantes que eu, quando as gostosas forem menos gostosas que eu, quando o seu rabo de galo não for melhor que o meu, a decisão é sua”.

Na cozinha não tinha nada fora do lugar, nem um copo na pia, na geladeira um bifão de contra filé temperado do jeito que só ela sabe fazer e na mesa outro bilhete – “se não aprender a cozinhar vai comer miojo o resto da vida, se vira”.

Articulista Valdir Fachini (SP)

O quintal estava uma beleza, nem uma folha ao vento, nem uma roupa no varal, só uma brisa leve me dizendo – “bem feito, seu tonto, agora vê se dá os seus pulos”.

À hora de entrar no quarto é que foi mais difícil, não sabia se entrava ou se ia pra sala me descabelar, criei coragem, abri a porta e entrei, também estava tudo em seu lugar, menos as suas bijuterias, (eu nunca fui capaz de dar uma jóia de valor pra ela), seus perfumes, (isso ela tem bastante) e as roupas dela, ela levou quase todas, as que ficaram deve ser porque não couberam na mala ou pra me dar um pouco de esperança.

Na cama outro bilhete que eu me recusei a ler, amassei, mas não joguei, só joguei meu corpo desiludido na cama e ali fiquei até o amanhecer me agarrando às últimas coisas que ela deixou; as lembranças, um bilhete não lido e a tampa da caneta.

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