“Te salvamos da facada”, diz Polícia Federal a Bolsonaro em protesto por salários

A Notícia do Ceará Policiais federais protestam condições de trabalho e cobram do Jair - foto: recuperada

Na hipótese de que houve facada, PF falhou e não salvou ninguém. Frase só faz sentido se salvação se referir ao inquérito, que desprezou a linha do AUTOATENTADO.

Em protesto por melhores salários, policiais federais no Ceará apresentaram faixa que chamou a atenção por conter frase que só faz sentido se interpretada como ameaça de revelar segredos sobre a facada ou suposta facada em Jair Bolsonaro.

“Te salvamos da facada e agora vai nos esfaquear pelas costas?”, dizia a faixa estendida em frente da superintendência da PF em Fortaleza, na última terça-feira.

Inquérito conduzido pela Polícia Federal concluiu que Bolsonaro foi alvo de uma facada desferida por Adélio Bispo de Oliveira em 6 de setembro de 2018, durante passeata em Juiz de Fora.

O caso foi decisivo para a eleição de Bolsonaro, já que o afastou dos debates e lhe deu exposição intensa na mídia.

Depois da facada ou suposta facada, o então candidato pelo PSL subiu nas pesquisas, e acabou superando Fernando Haddad no segundo turno.

A frase dos manifestantes da Polícia Federal não é verdadeira se se considerar que houve a facada. Nesta hipótese, os policiais federais que faziam a segurança de Bolsonaro falharam miseravelmente.

Teriam salvo de quê?

Depois que Adélio investiu contra Bolsonaro, dois seguranças voluntários é que imobilizaram Adélio.

Nenhum deles era policial federal, e Adélio foi levado para o segundo andar de um prédio sem faca alguma.

O objeto apresentado no inquérito como instrumento do crime foi entregue à delegacia da PF em Juiz de Fora horas depois por um policial militar, que contou uma história estranha:

Um paramédico que faz bico de segurança pisou em cima da faca no momento da confusão, quando Adélio era imobilizado pelos seguranças voluntários enquanto apoiadores de Bolsonaro tentavam agredi-lo.

Em vez de entregar a faca para um policial, esse paramédico dublê de segurança a deixou com um vendedor de frutas na esquina.

Algum tempo depois, avisou um policial aposentado de sua relação, que também era voluntário no dia, e este pegou a faca com o vendedor de frutas e entregou ao colega da ativa, que a levou para a PF.

Nenhum policial federal presente na passeata — e havia pelo menos quatro a serviço oficialmente — teve papel relevante para evitar a facada ou tomar as primeiras providências no sentido de esclarecer o crime.

Falharam, como disse. E apesar disso, foram todos promovidos, com cargos no exterior ou na Abin.

Se a PF teve papel relevante no episódio, foi na condução do inquérito. A investigação concluiu que Adélio agiu sozinho, sem mandante, mas uma linha foi desprezada, a do autoatentado.

A Polícia Federal não verificou a presença de Carlos Bolsonaro no Clube de Tiro .38 em Florianópolis, no mesmo dia em que Adélio concluía seu curso de tiro, dois meses antes do episódio em Juiz de Fora.

Gustavo Bebianno disse mais de uma vez que estranhou a presença de Carlos Bolsonaro em Juiz de Fora, já que ele não ia a nenhum evento de campanha nas ruas — aquele foi o primeiro.

Bebianno morreu, sem dar maiores detalhes. O segurança voluntário que imobilizou Adélio também faleceu de ataque cardíaco.

O delegado Rodrigo Morais, que poderia investigar a hipótese do autoatentado com a reabertura do caso, foi afastado. Na verdade, caiu para cima.

Ele ganhou posto nos EUA e deixou a investigação a cargo de um colega, que ainda não apresentou nenhuma informação relevante.

A rigor, o papel do sucessor do delegado Morais seria analisar o conteúdo do celular do advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, à procura de um mandante.

Certamente não vai encontrar, se os olhos estiverem voltados para um mandante que seja ou tenha sido opositor de Bolsonaro.

A única chance de novidade no caso é se a visão do policial federal se dirigir para o entorno de Bolsonaro. Mas, se o papel da PF é salvar Bolsonaro da facada, isso nunca ocorrerá.

Joaquim de Carvalho

Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: [email protected]

 

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