[Crônica] Terras de Outro País que não o Meu – por Isabela Abes Casaca


A madrugada sussurrou seus desígnios, eu obediente me entreguei aos seus mistérios lúcidos de mitologia e intuição. Sentei-me junto à roca de Morfeu e comecei a tecer, mas afinal o que aconteceu?

… Percorri terras do sul, terras do norte, terras baixas, terras altas, terras de outro país que não o meu. E o amanhã e o amanhã e o amanhã transcorriam com uma fluidez desapressada, a cada passada o pequeno derbake de meu peito batia por aquilo que imagina ao brilho estelar e deseja encontrar no raiar do dia.

Depois de certo tempo me deparei com um deserto, buscando evitar aquela travessia procurei um atalho. Julgando ter encontrado, adentrei inadvertidamente uma caverna. Lá viviam Equidna, suas quimeras e Astérion. Por conta de minha imprudência, errante vaguei pela caverna buscando sua saída.

Após muito errar no breu, procurando, encontrei um pedaço de lamina e um fio de linha, com esses artefatos em mãos pude me livrar. Assim foi minha libertação do cativeiro, encontrei um caminho para sair e me recordei dos sonhos dourados que enchiam meus olhos.

Novamente me vi perante o deserto que tinha de atravessar, então um pequeno pássaro pousou em minha cabeça e começou a cantar, no canto, tão melodioso e sereno, parecia pronunciar palavras:

– A longa e sinuosa estrada que levará até seu destino jamais desaparecerá, eu já vi essa estrada antes, ela sempre irá lhe trazer até seu destino, irá lhe conduzir até o que você procura…

Sem mais hesitar pus-me a caminhar, o Sol esquentava minha pele, renovando minha epiderme e também minha derme. Surpreendentemente depois de tanta andança meu olfato começou a farejar o odor salino no vento, me aproximava do mar. Ao final da travessia fiquei frente a frente com o oceano, o murmúrio das ondas continha um chamado:

– Venha conhecer as profundezas do ser, quem nada no raso não encontra pérolas…

Respirei fundo, enchendo meus pulmões. Mergulhei, afastando-me do ar racional e me entregando as águas do sentimento. Fui imergindo, buscando as altas profundezas oceânicas. Submersa avistei um labirinto, quando dei por mim estava em seus infinitos corredores. Em suas paredes, talhadas estavam inúmeras histórias, que há mim muito diziam e muitas lembranças traziam.

Busquei o centro, mas antes de encontrá-lo conheci cada pedacinho daquele lugar, desvendando uma história. Após isto, o encontrei. Lá recordei de algum saber imemorial, e numa espiral ascendente emergi, retornando a superfície.

Sai da água para os Campos Elísios e a primeira coisa que vi foi uma estátua esculpida em puro mármore. Subitamente, num breve piscar de olhos, ela ganhou cor, paladar, respiração, audição, tato, olfato, movimento, razão, emoção, coração e vida. A luz do Sol coloria seus olhos, onde a luz da Lua também nadava.

– Com quem se encontra o meu país? – Eu lhe perguntei.

– Encontra-se comigo… – Me respondeu. – Porque esperar por mais tempo pelo começo do mundo, se ele está diante de ti? – Então nós nos reconhecemos através do distante olhar.

A visão sombreou, só sobrou uma voz imperativa do inconsciente ecoando na mente semiconsciente:

– Eu sou aquele que te orientou até agora, tudo o que sabes e sentes, ninguém sabe meu Nome, ainda… – sussurrou baixinho.

Terminei de tecer e abri as janelas da minha face. Mas afinal o que aconteceu? Não sei ao certo, durou um dia, uma semana, um mês, um ano? Ou foi um sussurro de uma noite estrelada…?

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