TCEAM
Início Colunas A crise Rússia-Ucrânia e o Brasil – por Douglas de Castro

A crise Rússia-Ucrânia e o Brasil – por Douglas de Castro

Douglas de Castro é Professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de Lanzhou (China) - Foto: Divulgação

A diplomacia do Brasil, desde a época de Rui Barbosa, é reconhecida pelos vetores da busca de parcerias estratégicas e resolução pacífica dos conflitos. É no espírito deste último vetor que a crise entre a Rússia e a Ucrânia deve ser encarada.

Desde o final de 2021, a Rússia concentrou cerca de 100 mil soldados na fronteira com a Ucrânia, levantando o espectro de outro uso da força contra seu vizinho. A crise Rússia-Ucrânia começou em fevereiro de 2014, quando as tropas russas se espalharam de sua base naval no Mar Negro para assumir o controle da Península da Criméia. A Rússia apresentou várias justificativas legais conhecidas na época — intervenção por convite, intervenção humanitária, restauração das fronteiras russas e autodefesa.


Nenhum desses motivos dados à época chegaram perto de justificar a grave violação da proibição do uso da força como constante do Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas, tanto que, naquela oportunidade, a Rússia foi dissuadida a avançar com as suas pretensões.

A diferença é que em 2022 o respeito pela proibição do uso da força e a obrigação de resolver pacificamente os litígios, princípios que estão ligados à própria fundação da ONU, estão esgarçados pelos constantes ataques ao multilateralismo e a tudo que ele representa por movimentos ideológicos em ascensão no mundo. Chegamos a um momento de apoiar os princípios jurídicos autênticos que se consolidaram desde o fim da sanguinária Segunda Guerra Mundial, ou arriscar perdê-los em razão de projetos pessoais de poder.

Na disputa entre a Rússia e os Estados Unidos, em razão da expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), com a possível admissão da Ucrânia à organização, não faltaram acusações de ambas as partes na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, realizada no dia 31 de janeiro.

O grande desafio é que as declarações de ambas partes são permeadas por narrativas de segurança internacional, o que, na verdade, produz ainda mais insegurança, considerando que nem a Rússia nem tampouco os Estados Unidos conseguem aferir as reais intenções de um e de outro. É o que os cientistas políticos chamam de dilema de segurança, que na raiz aponta que as ações tomadas por um Estado para aumentar a sua segurança geram incertezas e desconfianças em outros Estados, fazendo com que eles também aumentem a sua segurança. Isso gera uma espiral de insegurança causada pela busca de segurança (ver The Security Dilemma, Ken Booth).

Qual é a relação destes acontecimentos com o Brasil? O país faz parte do Conselho de Segurança da ONU como membro não-permanente e, seguindo a tradição diplomática brasileira, na reunião realizada em 31 de janeiro evitou condenar a Rússia, apresentando um discurso a favor da redução da escalada do conflito e busca por uma solução pacífica conforme os ditames do Direito Internacional.

Uma palavra de cautela. A despeito desta manifestação da diplomacia brasileira, será necessária a contenção de forças de dentro do governo para evitar um posicionamento automático pró-Rússia, que embora seja um parceiro do BRICS (bloco de cooperação Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), parece estar mais associado à figura do líder russo (algo semelhante que aconteceu com os Estados Unidos recentemente quando governado por Donald Trump).

Douglas de Castro é Professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de Lanzhou (China)

Artigo anteriorONG vai entregar 15,5 toneladas de alimentos e 480 kits de higiene
Próximo artigoEmpresa de produtos médicos vai fornecer itens de informática para a Prefeitura de Manicoré

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Correio da Amazônia
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.