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A política econômica que levou ao nazismo alemão – por José Carlos de Assis

Foto: Ilustração
Redação I
Escrito por Redação I

Como resultado do primeiro turno das eleições, milhões de brasileiros se aperceberam do risco de o Brasil ser arrastado para uma experiência nazista. Creio que ela ainda pode ser evitada, com as tremendas ameaças que trará para a sociedade e o povo humilde, mas isso se as forças progressistas assumirem a responsabilidade plena por uma política econômica de combate frontal à recessão, à depressão e ao desemprego, sem contemporização e sem concessões ideológicas à direita representada por Bolsonaro. O trecho seguinte de meu livro “Trabalho como Direito”, p.50, traz as lições do pré-nazismo na Alemanha dos anos 1930:

“Nunca será demais acentuar a carga de sofrimento humano e de perdas materiais que a Grande
Depressão espalhou nos países industriais, com destaque para os Estados Unidos (15 milhões de desempregados em 1933) e Alemanha (6 milhões). Mais impressionante, nestes e nos demais países industrializados – exceto na Escandinávia social-democrata -, foi a reação estóica do estabelecimento liberal diante da miséria social em curso e sua obstinação na defesa do receituário ortodoxo da economia. Este se manteve intocado até a mudança presidencial norte-americana de modo que a recomendação de política padrão para enfrentar a crise, até 1933, não ia além de manter o orçamento público equilibrado e contrair o crédito – o exato oposto do que era necessário para relançar a economia.”

Para Andrew Mellon, secretário do Tesouro, a forma de sair da depressão, segundo aconselhou ao presidente Hoover, era mais falência e desemprego, mais liquidação: “Liquidem trabalho, liquidem ações, liquidem os fazendeiros, liquidem propriedade imobilliária”.

O secretário do Tesouro acreditava, e muitos outros altos funcionários do FED concordavam, que pânico e recessão eram bons para o povo. “Isso purgará a podridão do sistema”, Mellon explicava. “O povo trabalhará mais duro, viverá uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas mais empreendedoras pegarão os destroços das menos competentes.”

Foto: Ilustração

Na Alemanha, essa receita estava sendo aplicada à risca pelo novo chanceler Heinrich Brunning, como conta Galbraith:

“A ação saneadora de Brunning, em 1931, foi especialmente memorável. Os salários foram reduzidos, os preços foram baixados; os ordenados foram diminuídos; os impostos aumentados.
Tudo isso foi feito na ocasião em que cerca de um quarto do operariado alemão se encontrava desempregado. Não foram muitos os que se fizeram a pergunta que vários milhões de trabalhadores alemães fizeram a si mesmos: Se isto é democracia, será que Hitler pode ser pior?

Outro observador tira conclusões políticas similares da experiência que aplainou o caminho da
Alemanha para o nazismo:

“Em março de 1930, o dr. Brunning, um homem que gozava de estima universal, assumiu as funções de chanceler do Reich. Granjeou reputação internacional ao prosseguir, com coragem e determinação, pelo caminho que lhe apontava a opinião dos países estrangeiros, que era o da cura do grande mal alemão, o desequilíbrio orçamentário. No intuito de restabelecer esse equilíbrio, não hesitou em baixar sucessivamente três decretos de emergência (em julho de 1930, dezembro de 1930 e julho de 1931), cada um dos quais reduziu as despesas públicas ou aumentava os impostos, ou fazia ambas as coisas ao mesmo tempo. Tratava-se de um procedimento bastante elogiado. Ao assumir o poder, encontrara 3 milhões de desempregados; quando deixou o governo, depois de mais de dois anos de esforços em prol do bem público, havia 6 milhões! Além disso, encontrou 12 deputados nazistas no Reichstag. Depois de seus primeiros atos de força, esse número subiu para 107; imediatamente após sua saída do governo, já eram 230!”

Portanto, não culpem Bolsonaro pelo risco do fim da democracia. Culpem a obsessão das próprias classes médias ilustradas pela infame obsessão neoliberal.

Fonte: Brasil 247

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