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Avanço do Comando Vermelho em Paraty afeta moradores, comércio e turismo

Foto: Recorte

Conhecida internacionalmente por seu Centro Histórico preservado e por praias paradisíacas, Paraty enfrenta uma realidade cada vez mais distante da imagem turística. A consolidação do Comando Vermelho em bairros da cidade, na Costa Verde do Rio de Janeiro, tem provocado mudanças profundas no cotidiano de moradores, impactado pequenos comércios e alcançado áreas frequentadas por turistas brasileiros e estrangeiros.

Levantamento publicado originalmente pelo jornal O Globo aponta que a facção ampliou seu domínio territorial e econômico no município, reproduzindo práticas já observadas em áreas sob controle do grupo na capital fluminense. Relatos de violência, expulsões forçadas e extorsões passaram a integrar o dia a dia de comunidades próximas ao Centro Histórico.


Um dos pontos simbólicos dessa transformação é a Praça da Paz, inaugurada em 2016 como espaço de lazer e convivência. Localizada entre as comunidades da Ilha das Cobras e da Mangueira, a área hoje é descrita por moradores como um local de abandono e medo. A região começou a ser disputada por facções criminosas por volta de 2010, período de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio, quando o Comando Vermelho atuava na Ilha das Cobras e o Terceiro Comando Puro controlava a Mangueira.

Os confrontos marcaram aquela fase. Alice, nome fictício de uma moradora da Mangueira, relata que perdeu cerca de 20 amigos, todos adolescentes envolvidos com o tráfico. Em 2021, após assassinatos de lideranças rivais, o Comando Vermelho assumiu o controle da comunidade, dando início a uma série de expulsões. Alice e a família foram obrigadas a deixar a casa e o pequeno comércio que mantinham no bairro após receberem um prazo de 24 horas para sair.

As expulsões seguem sob investigação da 167ª Delegacia de Polícia, que apura outros casos semelhantes, como o registrado no Morro do Ditão, às margens da Rodovia Rio-Santos. A Polícia Civil investiga ainda ameaças, extorsões e a expansão territorial da facção em diferentes regiões do município.

Moradores relatam aumento da venda de drogas dentro das comunidades e o envolvimento crescente de adolescentes. Dados do Instituto de Segurança Pública mostram que, no último ano, 48 menores foram apreendidos em flagrante em Paraty, número superior ao registrado no ano anterior. O medo tem levado famílias a deixar a cidade ou enviar filhos para outros estados.

Segundo um policial civil ouvido sob anonimato, o Comando Vermelho já atua de forma estabilizada em Paraty e passou a explorar atividades econômicas locais, interferindo inclusive em serviços básicos. Em bairros como o Condado, moradores relatam a redução da circulação de ônibus municipais nas áreas internas, limitando o transporte à via principal.

A atuação do grupo criminoso também alcançou áreas turísticas como Trindade e a Praia do Sono, conhecidas pelo perfil alternativo e pelo fluxo constante de visitantes. Há denúncias de tentativas de extorsão contra barqueiros, donos de estacionamentos e até turistas, cobrados de forma irregular para acessar praias e trilhas. Em alguns episódios, moradores caiçaras se mobilizaram para conter a ação dos traficantes.

Atualmente, ao menos seis investigações estão em andamento na 167ª DP sobre a exploração territorial do Comando Vermelho em regiões como Paraty-Mirim, Ponta Negra, Praia de Cajaíba, Juatinga e Calhau. As apurações incluem suspeitas de cobrança de percentuais sobre vendas de terrenos, imóveis e serviços turísticos no Cais de Paraty. No Centro Histórico, principal cartão-postal da cidade, ainda não há denúncias formais.

A escalada da violência levou a uma audiência pública na Câmara Municipal no dia 19, onde moradores cobraram maior presença do Estado, a instalação de um posto de polícia comunitária em Trindade e ações mais efetivas em áreas de preservação ambiental. O comandante da Polícia Militar local anunciou o reforço de 90 agentes a partir de março.

Além da violência, problemas estruturais agravam a situação dos moradores, como o alto custo dos aluguéis e a exclusão social. Entre paisagens que atraem turistas do mundo inteiro e bairros marcados pelo abandono, Paraty vive o desafio de conter o avanço do crime organizado e reconstruir a presença do poder público em territórios cada vez mais fragilizados.

Fonte: Brasil 247

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