Cadê a égua do seu Tonico? – Por Valdir Fachini

Articulista Valdir Fachini (SP)

Ho mãe, hoje é quarta-feira, hoje é dia do seu Tonico vir aqui em casa procurar a égua dele, não é?
É sim meu filho, já pega a viola do pai e deixa no jeito.

Dito e feito, lá pelas dez e pouco chegava o seu Tonico (Antônio Ferreira da Costa, se bem me lembro, era esse o seu nome) vinha ele, limpando o suor do rosto com a manga da camisa, com um pedaço de corda na mão, esbravejando e chutando pedra e toco. Desramada de égua, não tem um dia que ela não foge, os meninos não viram ela passar por aqui não? Essa pernada me deu uma sede, comadre Durvalina .me arruma um copo d´água?

Antes dele terminar de gritar lá do portão, a mãe já vinha com a água, ela já conhecia o costume do seu Tonico (Antônio Clementino da Silva, se bem me lembro, era esse o nome dele).

Então ele sentava na varanda, pedia a viola do pai e começava a cantar e tocar. De viola até que ele manjava, mas cantando, era uma negação.

Articulista Valdir Fachini (SP)

Enquanto o som da viola e a voz do seu Tonico (Antônio Belarmino de Oliveira, se bem me lembro, era assim que ele se chamava) se espalhava pelo quintal, o cheiro da costela com mandioca da mãe, saía da cozinha, vinha fazendo caracol, inundava a varanda e penetrava nas nossas narinas.

Então a mãe convidava seu Tonico (Antônio Vicente Correia, se bem me lembro, ele foi batizado assim) para almoçar, ele topava.

Na quinta-feira a égua fugia lá para os lados do sítio do padrinho Venceslau, nesse dia, a madrinha fazia frango com quiabo, a água já estava fresquinha, a viola afinada e as cadeiras na varanda.

Depois de comer uma pratada de arroz com feijão, uma coxa. Uma asa e um pé do frango e cantar a moda da mula preta…eu tenho uma mula preta, com sete palmos de altura…Raul Torres, seu Tonico (Antônio José de Lima) agradecia e voltava a campear a égua.

Cada dia da semana, a égua fugia para uma banda, no domingo ela fugia na hora do almoço e na hora da janta.

A vizinhança toda sabia que a égua nunca fugia, mas ninguém se importava, porquê seu Tonico tinha uma alma boa.

O pai dizia que ele era um anjo que Deus mandou para tomar conta da gente.

Um dia, meu irmão mais velho (era uma quarta) ficou escondido perto da casa do seu Tonico, (Antônio Barbosa), quando o fila-boia saiu, o mano pegou a égua e a levou para nossa casa, quando seu Antônio chegou perguntando pelo animal, trouxe ela amarrada na corda, o homem ficou sem graça, agradeceu e foi embora, nem sede sentiu.

Mas a mãe, com aquele seu imenso coração, lá da porta chamou…volta aqui seu Tonico, amarra a égua no mourão e vem tomar uma água, esse calor tá de rachar, canta uma moda pra gente, Vai lá menino, busca a viola do pai.

Espera pro almoço, seu Tonico, eu to fazendo costela com mandioca, o senhor gosta?

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