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Lula ou Bolsonaro? Racha entre homens e mulheres expõe divergências entre casais

Silvana Pizaini é eleitora de Lula e o marido, Marcio Couto, vota em Bolsonaro - Foto: Hermes de Paulo/Infoglobo

Francisca Magalhães, a Kika, diz aos quatro ventos que é “Lula lá”. Edson Medeiros Pereira, o Edinho, é bolsonarista e prefere não pronunciar o nome do petista. Casados há 33 anos, eles refletem a polarização entre os apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) na atual corrida presidencial. Mas os dois conseguiram pacificar discórdias políticas que vinham desde a eleição de 1989, entre Collor e Lula, e que, em 2018, dizimaram o grupo da família no WhatsApp.

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— Eu digo: ‘Edinho, como pode você, casado, com duas filhas, votar nesse homem que trata mulheres igual a lixo?’ — questiona a jornalista Kika, de 55 anos. O marido, de 61 e aposentado, não deixa por menos.

— Sou totalmente contra o PT, só tem vigarista.

A história do casal, que mora em Niterói, revela um dos traços do eleitorado que pode ser decisivo nesta eleição. No próximo domingo, homens e mulheres devem ir divididos às urnas para escolher o próximo presidente. Levantamento feito pelo GLOBO a partir de pesquisas Datafolha disponíveis no Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) mostra que a disparidade de votos entre gêneros em 2022 é a segunda maior desde 1989, considerando as declarações de voto nos adversários petistas em meados do mês de setembro dos pleitos passados.

Machismo e pandemia

Na última pesquisa Datafolha, divulgada na quinta-feira, Bolsonaro tem 38% das intenções de voto entre o público masculino, mas é citado por apenas 29% das eleitoras. Ou seja, nove pontos percentuais separam homens e mulheres — uma discrepância que só não supera 2018, quando Fernando Haddad (PT) assumiu o lugar de Lula, que estava preso. Na época, a distância entre homens e mulheres que declaravam voto em Bolsonaro era de 16 pontos percentuais.

Parte da performance ruim de Bolsonaro entre o eleitorado feminino se deve às declarações machistas do presidente e a forma como conduziu a pandemia, afirma a cientista política Camila Rocha, uma das autoras do livro “Feminismo em disputa: um estudo sobre o imaginário político das mulheres brasileiras”.

— Em 2018, a mulher média brasileira pensava que as falas misóginas e machistas de Bolsonaro eram escorregões. Mas elas começaram a reparar que essas atitudes eram um padrão. Na pandemia, a decepção das mulheres com Bolsonaro pelo que qualificavam de “comportamento desumano” foi muito maior do que entre eles — diz Camila.

Ana Beatriz vota em Lula, enquanto Jean Claudio é eleitor de Bolsonaro — Foto: Brenno Carvalho/Infoglobo

É exatamente o que pensa a atendente Tayna Mourad, de 25 anos, casada há três com o consultor fiscal Hector Paulino Oliveira, de 40.

— Não gosto do jeito grosseiro do Bolsonaro quando responde às jornalistas mulheres. Ele é muito machista. Também não gostei das brincadeiras na pandemia, dizendo que era uma “gripezinha” — diz Tayna.

Os dois vivem em São Paulo e evitam o tema para manter a boa convivência. Tayna sempre votou no PT. Hector, que escolheu Bolsonaro em 2018, conta que precisa lidar com “cutucadas” de política vindas até da sogra, uma petista fervorosa.

— Esses dias, ela estava comparando o valor de alimentos e do combustível nos governos Lula e Bolsonaro. Eu sempre ouço esse tipo de piadinha — diz.

Quando o amor converge e a opção na urna diverge, eliminar a política das conversas em família tem sido a solução de muitos para lidar com as desavenças. A maioria já não tenta persuadir o outro de uma guinada até 2 de outubro, porque não faltam exemplos de desentendimentos.

Moradores de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, Jean Claudio Santos, de 28, e Ana Beatriz Siqueira, de 27, começaram a namorar no auge das eleições de 2018. Estão casados há três anos e, enquanto a estudante de dublagem é petista de berço, o motorista de aplicativo tem pais bolsonaristas e declara voto no atual presidente.

— Casei sabendo que ele era bolsonarista — lembra Ana Beatriz. — Eu tenho minhas ideias. Meu marido, as dele. O importante é que a gente se respeita e se ama.

Os dois tentam se adaptar às diferenças para não desgastar a relação.

— Ela é de esquerda, eu sou de direita. Ela acredita em assistencialismo, eu em meritocracia. Mas acho que política não pode se misturar com relacionamento — diz Jean Claudio, que, questionado sobre as posturas de Bolsonaro em relação às mulheres, não titubeia: — Não vejo atitude nenhuma do Bolsonaro que mostre que é machista. Minha esposa acha que é. Deve ser porque ele fala alto e xingando.

Ana Beatriz discorda:

— Bolsonaro não fala com as mulheres. Por isso, não voto nele —diz a estudante, que cola adesivos de Lula pela casa, mas não usa nada da campanha quando encontra a família do marido.

O fator rejeição

Esse panorama de rumos opostos entre os gêneros é reforçado por uma rejeição muito maior das mulheres à figura de Bolsonaro. No Datafolha de quinta-feira, 56% delas disseram não votar no candidato do PL de jeito nenhum. É, de longe, o maior índice de rejeição de um candidato à Presidência nas últimas duas décadas, segundo levantamento feito pela pesquisadora do Cesop Andressa Rovani. A rejeição de Lula no segmento é 20 pontos percentuais menor: 36%.

— Os homens tendem a aderir mais à agenda de Bolsonaro, pois têm um comportamento mais conservador e mais punitivista do que as mulheres — diz Andressa.

Em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, o casal Marcio Couto e Silvana Pizani também está em lados opostos. Profissional da educação, ela votaria em Simone Tebet (MDB), mas a rejeição a Bolsonaro é tamanha que mudou de ideia e aderiu ao “voto útil” em Lula (PT).

— Eu já estava decidida pela Tebet. Mas, com o começo da campanha na TV e os debates, a situação piorou. Ele ataca as mulheres, ofendeu a jornalista ao vivo e até hoje se acha na razão, não se desculpou. Militar da reserva, Marcio se identifica com a agenda de Bolsonaro e vê pontos positivos em seu mandato.

— Na economia e em outras áreas pode não ter feito tanto, mas é preciso ver que ele enfrentou uma pandemia que afetou o mundo. Membro da Associação de Terapia de Família do Rio, a terapeuta Suely Engelhard, conta que, com a polarização política, a busca pelos consultórios tem crescido.

— Só uma casa com respeito democrático se sustenta num momento de tanta polarização. É um grande desafio ter noção do limite do outro e do seu, o que podemos conversar de forma clara e o que não podemos dizer em determinados momentos.

O Globo

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