
A autorização para que o fundo de pensão dos servidores do Amazonas (Amazonprev) investisse R$ 50 milhões em letras financeiras do Banco Master — hoje liquidado pelo Banco Central — continua levantando questionamentos sobre a condução da operação e o papel de seus responsáveis. O caso ganhou novos contornos após a revelação de que o então presidente do fundo, Ary Renato Vasconcelos de Souza, responsável pela assinatura do aval, integrou a equipe financeira da campanha à reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil). As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
A operação, realizada sem registro em atas, sem deliberação colegiada e fora do rito padrão da Amazonprev, foi formalizada 28 dias depois de Ary assumir a presidência da instituição. Antes disso, ele exercia o cargo de gerente de Administração e Finanças do fundo e tinha passagem pela Casa Civil do Estado. Em 2022, atuou como contador da campanha de Lima, recebendo R$ 15 mil pelo serviço, além de prestar assessoria a outros candidatos do União Brasil.
Assinatura antes mesmo da nomeação oficial
Documentos públicos do Ministério da Previdência mostram que Ary já aparecia como representante legal em autorizações de investimento em junho de 2024 — antes mesmo de ser oficialmente nomeado presidente, em 3 de julho daquele ano. O documento que cita a aplicação de R$ 50 milhões no Banco Master traz sua assinatura datada de 31 de julho, mas descreve que a operação teria ocorrido em 6 de junho, ainda sob a gestão da ex-presidente Maria Neblina Maraes.
A incongruência entre datas, somada à ausência de atas e deliberações formais, levou à abertura de uma sindicância interna no Amazonprev. Membros do Conselho de Administração afirmam, porém, que até hoje não tiveram acesso ao relatório completo da investigação. Uma reunião extraordinária para tratar do tema foi convocada para 29 de dezembro.
Investimento fora do padrão
Segundo relatórios internos de 2024, a aquisição das letras financeiras do Master ocorreu de forma “incomum”, sem o fluxo de análise de risco exigido pela própria política do fundo. Um conselheiro classificou a operação como uma “surpresa desagradável”, ressaltando que decisões desse porte deveriam ser obrigatoriamente colegiadas.
O caso não é isolado. Outros fundos de previdência estaduais e municipais, como os do Rio de Janeiro e do Amapá, também aplicaram recursos no Banco Master — quase R$ 2 bilhões ao todo — e enfrentam questionamentos semelhantes.
Risco real de perdas
As letras financeiras não são cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Com a liquidação do Banco Master, anunciada pelo Banco Central em novembro, o Amazonprev entra na lista de credores da instituição, com risco efetivo de perdas. O fundo amazonense administra cerca de R$ 10 bilhões e representa aproximadamente 100 mil servidores.
Apesar das incertezas, a gestão estadual afirma que o aporte corresponde a menos de 0,5% de todos os investimentos do fundo e que não afeta o pagamento de aposentados e pensionistas. Segundo nota enviada pelo governo e pela própria Amazonprev, Ary Renato Vasconcelos de Souza tinha “capacidade técnica” para o cargo e, durante sua gestão entre 2024 e 2025, os investimentos do fundo teriam gerado retorno superior a R$ 864 milhões.
Passagem breve e investigação em curso
Ary permaneceu dez meses na presidência do Amazonprev e deixou o cargo em maio deste ano, sendo substituído por Francisco Evilazio Pereira, ex-secretário de Justiça do Estado. Nos bastidores, conselheiros afirmam que ainda aguardam a divulgação completa da sindicância interna que apura eventuais irregularidades na operação com o Banco Master.
Paralelamente, a Polícia Federal investiga transações do banco com fundos de previdência de todo o país, suspeitando de fraudes e manobras financeiras utilizadas pela instituição para manter liquidez no mercado.
Fonte: 18 Horas




