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Privilégio da singularidade – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário - Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Caros leitores, sou um privilegiado, completo nessa sexta, dia dez de julho, mais um ano de existência, e aproveito esse espaço para enaltecer a singularidade de pertencer a uma geração que pode visualizar, talvez, pela primeira vez, na história da humanidade, uma ampla paisagem cronológica, em três momentos distintos, mas complementares. Enxerga, com instigante nitidez o tempo passado, os princípios de tudo e o desenrolar da História, desde a incompreensível criação cósmica do big-bang. Assiste, em tempo real, quase sem subterfúgios, os causose eventos do presente, tristes, ou alegres, perto ou distantes. É capaz de prospectar o futuro, para construir cenários e avaliar – não sem temor e nostalgia – que haverá, aqui, um fim, mas outros começos e outras Terras.

Assim, septuagenários diferentemente dos raros longevos, de outras existências – enganados pelos conhecimentos limitados, preconceituosos e obscurantistas, de suas épocas – tem uma visão clara e consciente do seu momento: concatenada, fundamentada e dinâmica. De igual forma, mesmo no ambiente temporal mais curto da genealogia de sua estirpe, o septuagenário, espiando para trás, identifica, com alguma intimidade, seus ancestrais, desde bisavós, ou tetravós, enquanto, voltando-se para a frente, encontra a descendência de netos. Acumula, de relance, uma memória familiar de quatro a cinco gerações.


Esse rico e buliçoso ambiente de tantas dimensões do tempo, captado e compreendido, criticamente, pelos longevos, vem moldando os novos velhos, homens e mulheres. Isso é novo e se soma a tantas outras revoluções segmentadas, eu mexem com a cabeça de todo mundo… O simbolismo do idoso, ou de melhor idade, na figura estilizada do simpático ancião alquebrado, apoiado na bengala, além do desenho preconceituoso, está na contramão de uma moderna visão da velhice. Não minimizo a velhice. É a benfazeja condição do laborioso processo de viver e constitui uma atividade de alto risco…, Mas, por ignorância, má fé ou fatalismo, são equivocados os conceitos que associam a velhice, apressadamente, à doença, à decrepitude, à alienação, ao isolamento e pior: às disfunções.

No Brasil, o Estatuto do Idoso, ressalvada sua boa intenção e meia dúzia de mandamentos oportunos e apropriados, é, no todo, um preconceituoso e hipócrita manual classificatório, que separa, utopicamente, o idoso (acima de 60 anos) do resto dos indivíduos tidos como normais. Num mundo, cuja população freia o seu crescimento, tende à maior longevidade, melhor se educa e interage com a velocidade da www, e da IA, impõe-se interpretar e tratar, com prontidão e competência, as profundas mudanças consequentes desse inusitado processo.

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