Relações promiscuas – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Como observa Platão, revoluções só acontecem quando as elites se dividem. O crime só aumenta exponencialmente quando as autoridades se mostram transigentes. Quando combatido com honestidade e eficiência, o comboio do crime não tem como dominar faixas cada vez maiores do território legal. Quanto mais atrasada é uma sociedade, mais precisa de elites valorosas. Só que menos está preparada para formá-las.

O desafio reside em quebrar o círculo vicioso. O fato de as elites se mostrarem eticamente indignas e tecnicamente ineptas não é castigo dos céus, é fruto de processos sociais viciados. A única forma de melhorar as qualidades morais e intelectuais das elites é aprimorar as instituições que as formam e a proficiência das que as controlam. A fronteira entre o legal e ilegal está ficando cada vez mais borrada. Certas elites regionais não sentem constrangimento em fazer acordos, tácitos ou abertos, com grupos marginais ou criminosos às expensas do interesse público.

Governantes têm permitido uma fieira de ilicitudes para ter popularidade junto a setores organizados da sociedade. Tendo de decidir entre tomar medidas desagradáveis ou desastrosas, fogem da responsabilidade paparicando de modo cada vez mais escancarado os fora-da-lei. Do transporte clandestino à ocupação irregular do solo, passando pela comercialização de produtos roubados ou contrabandeados a céu aberto, o poder público pactua com os infratores. Sempre com a desculpa cômoda de que é movido por razões sociais. O mercado que precisa de regulação urgente é o político. Em nome da conquista do eleitorado prevalece o vale-tudo. Como a opinião pública não tem o menor controle sobre os porões da administração, autoridades fazem acordos espúrios com os senhores do crime traindo a “sociedade legal”. Em que consiste o “pacto tácito”? As elites podres entregam o espaço público a diferentes formas de ilicitude e, em contrapartida, recebem a regalia de ocupar os palácios.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

A população ordeira, encurralada e indefesa, perde o direito de circular com segurança pelo espaço público, mas continua obrigada a pagar a conta salgada dos impostos. As relações promíscuas entre determinadas autoridades e os negócios criminosos estão levando as grandes cidades para o abismo e deixando o poder oficial sem condições morais de exercer papel fiscalizador e repressor.

Quando o Estado, por omissão dos governantes, renuncia a empregar o monopólio do uso da força na defesa do cidadão, reprimindo e punindo ilegalidades, se mostra incapaz de exercer sua principal missão. Já há casos em que o poder começa a ser dividido entre os donos informais das ruas e os senhores formais dos palácios. E este é um pacto contra a sociedade. É preciso conter no nascedouro a aliança entre a elite política e o crime organizado. Do contrário, se chegará à total desmoralização do poder público, resultado da incorporação das irregularidades ao cotidiano da sociedade e à crescente indistinção entre o mundo legal e o ilegal.

Chega de invocar o desejo de minorar os problemas sociais como justificativa para a falta de autoridade acumpliciada. Se os governantes não assumirem suas mais espinhosas responsabilidades, algumas cidades brasileiras serão “colombianizadas”. O populismo romântico já é coisa do passado. Hoje, os governantes não ficam desconfortáveis em se mostrar lenientes, por interesse e não por qualquer sentimento humanitário, com o crime. Esse “laissez-faire” cínico e cruel ocorre porque, em muitos casos, o poder legal e o paralelo se complementam. Na prática, é feita a mais perversa divisão: os maiorais ficam com os palácios e aos marginais são entregues as ruas. E o cidadão a tudo assiste como um filme que o aterroriza.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui