
Com meu problema sério de insônia, sonho acordado como muitos. Sonhamos a paz, sonhamos liberdade, sonhamo-nos ricos ou pobres, sonhamos planos – incertos e vocacionais. Sonhamos ilusão – fugas da realidade, o próprio sono, a fantasia e a quimera. Sonhamos pensar com insistência – ter a ideia fixa, sonhamos com a glória e a tragédia, com o amigo e o inimigo, sonhamos amor e ódio. Sonhamos recontando o passado, no vago misticismo de quem sonha um sonho abandonado. Há sempre a capitalização do imaginário. Se há na face da terra de um hoje propagador do cansaço de viver, creditemos nossos anseios à vontade de sobreviver nas divagações noturnas que nos fazem a melhor forma de apreciar a vida.
Quando se vai ficando velho é preciso reunir as forças que restam para aproveitá-las mais viáveis ao romantismo de cantar, escrever, conversar saber do que fez e o que deixou de fazer sem as lamúrias do arrependimento. Sempre podendo recordar que passou, saudando o que saldou de bom, com saudade atual e alicerçando os finais de horas e minutos no recanto que mais aprouver a nós na companhia dos entes mais queridos. Já não aguento a dinâmica da violência, quantitativamente esturricada no cotidiano, absorvendo-nos a paciência – absolvendo-nos de todo o mal.
Violência de todo tipo – não somente a da agressão física, mas a da incompreensão, da mentira, da falta de amor, do descaso, da falta de cidadania, da incoerência, do ódio, da omissão, da injúria e do perjúrio. Portanto, não há limite para sonhar. Antes, bem mais novo, é claro, sonhava em ser alguém na medida do possível, que conseguisse uma maneira de acabar com políticos espúrios e corruptos e com essa elite burguesa que atola nosso País há século seculorum; acabaria com essas igrejas universais forjadas por mentes servegonhentas de pastores de caras lisas; mandaria evacuar os humildes de bem dos morros do Rio de Janeiro e incendiaria com Napalm os traficantes que resistissem; não permitiria nenhum menor abandonado sem lar nem comida, muito menos sem escola;
Obrigaria todos os vagabundos de movimentos de siglas fajutas a trabalharem para o bem geral da Nação;meu Vasco da Gama teria o melhor time de futebol do mundo e nem o Real Madrid teria coragem de enfrentá-lo; expulsaria todos os estrangeiros da Amazônia e daria guarida ao pulmão do Mundo. Hoje, sonho-me diferente. Dou-me o direito, assim, de terminar meus dias com o amor de meus filhos, com certeza daquele diferenciado dos meus netos e, mais explicitamente do carinho dos familiares e dos amigos. Beberei meu puro scoth, ou meu vinho Cabernet. Não é à toa que sempre repito o que escrevia aos 18 anos: Um sonho dificilmente deixa de ser um sonho – mas esses são dos vera!