
O deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), uma das figuras mais antigas e influentes da bancada evangélica no Congresso Nacional, passou a ocupar o centro das investigações da CPI do INSS e da Operação Sem Desconto. O parlamentar é apontado como principal articulador de um acordo que resultou no repasse de R$ 221 milhões a uma entidade suspeita de fraudar aposentados — enquanto empresas ligadas a seus familiares teriam sido beneficiadas financeiramente pelo mesmo esquema.
As apurações indicam que Silas Câmara teve papel decisivo na aproximação da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA) com o Instituto Nacional do Seguro Social. Ainda durante o governo Bolsonaro, o deputado teria apresentado o presidente da entidade, Abraão Lincoln, à cúpula do INSS, abrindo caminho para a formalização de descontos associativos diretamente nos benefícios previdenciários.
O resultado foi um crescimento considerado atípico: entre 2023 e 2025, a CBPA passou de cerca de 35 mil para 442 mil associados. Auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), porém, identificou indícios graves de irregularidade. Em uma amostra analisada, todos os aposentados ouvidos afirmaram nunca ter autorizado os descontos realizados em seus benefícios.
Enquanto o INSS transferia mensalmente valores que chegavam a R$ 9,5 milhões para a entidade, documentos enviados à CPI revelam que a CBPA firmou contratos com empresas e profissionais ligados à família do deputado. Entre os pagamentos identificados estão cerca de R$ 1,8 milhão destinados a empresas de comunicação associadas à cunhada e à sogra do filho de Silas Câmara, além de repasses à Rádio Morena FM, dirigida por outro filho do parlamentar. A filha do deputado, advogada, também teria sido contratada para atuar no departamento jurídico da confederação.
O caso reacendeu questionamentos sobre o histórico do deputado. Silas Câmara já foi investigado no passado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento em um esquema de uso de múltiplos CPFs e identidades distintas, supostamente utilizadas para ocultar movimentações financeiras nos anos 1990. O processo acabou prescrevendo, o que impediu uma condenação, mas deixou registros de um passado jurídico controverso.
Além da pressão vinda das investigações policiais e parlamentares, o deputado enfrenta ataques no campo político e pessoal. Sua ex-esposa, a deputada Antonia Lúcia (Republicanos-AC), afirmou publicamente que ele teria financiado uma vida de luxo com recursos desviados de pescadores vinculados à entidade investigada.
O escândalo também provocou fissuras internas na bancada evangélica. Declarações da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que sugeriu o envolvimento de grandes lideranças religiosas no esquema, geraram reação imediata do pastor Silas Malafaia e expuseram um racha entre parlamentares e líderes evangélicos.
Mais do que um caso de possíveis irregularidades administrativas, o episódio envolvendo o INSS tornou-se uma crise política de grandes proporções, com potencial de abalar a credibilidade de uma das maiores e mais organizadas bancadas do Congresso Nacional.
Foto: Agência O Globo




