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Abandono – Por Max Diniz Cruzeiro

Neurocirurgião Max Diniz Cruzeiro (DF)
Redação I
Escrito por Redação I

Abandono é a retirada do vínculo ou do amparo a um objeto (pessoa, abstração, ente, ser vivo, ou, elemento da natureza) no qual ele passa a depender-se exclusivamente de si para o alcance de seus objetivos.

Parte de um princípio de assistencialismo ao qual o indivíduo está amparado para o exercício de suas funcionalidades. E deste ponto, é retirado o auxílio, e este passa a depender exclusivamente de si mesmo, para a gestão de uma tarefa ou atividade.

Parte de um indício de uma falta que a lacuna deixada pelo objeto passa a exercer sobre o indivíduo abandonado. No qual ele tem dois caminhos: se ressentir pela ausência ou lutar para incorporar as propriedades de que falta para ser independente nesta relação que se desfez.

Muitos sentimentos densos são despertados diante de um abandono, principalmente quando o objeto simbolizado é outro ser, que pode ser uma pessoa ou um animal de estimação.

Esse tipo de subjetividade não deixa a pessoa viver, e passa a clamar pela ausência, a partir da falta. Convém estudar esses dois componentes mais profundamente: a falta e a ausência.

A falta é o sentimento que brota pela inexistência do objeto na relação. De seus atributos que eram compreendidos e resgatados. E do que era projetado sobre o indivíduo para compensar aquilo que supõe não ter adquirido.

A ausência é restrita ao fenômeno de localidade, onde se situa fisicamente o objeto. Que dele se dependia para que a compreensão fosse gerada. É um tipo de espaço-falta onde o elemento era percebido se integrando dentro da tridimensionalidade. É uma topografia do objeto no interior do indivíduo que se crê abandonado.

Neurocirurgião Max Diniz Cruzeiro (DF)

Então quando a falta abastece de subjetividade o indivíduo, a ausência nutre a falta com a não incorporação do objeto sobre o contexto onde se situa o indivíduo.

Num processo de significação que merece ser estudado mais profundamente, porque a compreensão desta relação é que se permite introduzir outros objetos que possam ser nomeados pelo sujeito a fim de que ele possa ser o substituto do objeto ao qual se sofreu abandono: o outro.

A caracterização do outro como objeto é porque ele simboliza um aspecto interno dentro do indivíduo abandonado. E como não se possui a ninguém, o outro é representado internamente por um instanciamento neural.

Esse instanciamento neural que é ativado todas as vezes que a existência do objeto é observado no ambiente. E como ente não ausente, é capaz de significar alguma coisa de relevante dentro da estrutura psíquica.

E quando é topograficamente distante, o abandono se configura, porque a rotina cerebral não pode ser iniciada, então o indivíduo evoca para si a funcionalidade que se nega a funcionar porque não existe o objeto no ambiental.

E o instanciamento neural passa a configurar dentro de uma cadeia de ilusões, onde o objeto passa a ter existência projetiva.

Então o indivíduo passa a fantasiar a falta, o pai ou a mãe que não existe mais, se formos conversar dentro de uma cadeia de conceitos freudianos. E a exigir que ele ou ela retorne para suprir a vazio deixando pela ausência.

Então o objeto assume feições masculinas e feições femininas. E cria uma subjetividade dentro da metafísica cognitiva deste indivíduo. Quando não incorporado o preenchimento não pode ser estabelecido. Então algo tem que suprir a este abandono verificado.

O abandono geralmente é percebido dentro daquilo que o indivíduo ainda não está preparado para ser independente ou suprir-se sozinho.

Identidade de quem se ressente, de quem lamenta a inexistência do outro, que o poderá fazê-lo encaminhar para a tristeza, devaneio, melancolia ou o luto.

Porém a grande questão é como introduzir um novo objeto de forma que este possa suprir a falta do objeto que partiu no relacionamento?

São várias técnicas utilizadas por psicólogos e psicanalistas que cuidam desta particularidade da subjetividade, pois é preciso recompor o sujeito e lhe devolver uma subjetividade em que o equilíbrio possa ser gestado dentro de seu ambiente psíquico.

Porém, embora este enfoque seja o ser abandonado, o sujeito pode chegar a um grau de maturidade que se autoconvença de que também pode exercer o abandono definitivo de um condicionamento.

Neste segundo caso o indivíduo já está amadurecido suficiente para se ajuizar pelas próprias pernas e a conduzir por si só a sua vida. Como um processo natural de uma criança que saia do colo para engatinhar com certo auxílio e depois a passar a andar com total liberdade no qual abandona esse colo para ganhar o mundo.

Ou uma criança que para suprir a sua falta frente à amamentação passa a utilizar-se de uma chupeta, e quando passa deste estágio, o objeto passa a ser ignorado porque a chupeta passa a não ter mais serventia e não mais a emitir prazer em sua utilização.

O abandono também pode se configurar de forma recíproca, quando não existe mais nenhum motivo para a formação do elo de uma convivência em fatores interacionais entre dois indivíduos.

Ou ser apenas uma necessidade interna de um indivíduo, que o objeto não está ausente no ambiente, mas se configura dentro de uma resolução psíquica que se mostre ausente dentro de si mesmo, ao manifestar uma falta.

Fraternalmente,

Max Diniz Cruzeiro

 

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