[Crônica] Quando os Tigres se Libertam – por Isabela Abes Casaca


MarteNo céu Áries colocou seu elmo, empunhou seu escudo, testou o fio de sua espada golpeando o ar, se dirigiu em direção ao espelho do Universo, no reflexo surgiu Marte, ambos contemplaram-se naquele encontro de semelhantes.

Com inegável sincronia puxaram da cintura a trombeta feita de chifre de carneiro, com todo o ar de seus pulmões sopraram o instrumento, o eco foi estrondoso.

O prenúncio do som estava escrito no firmamento, porém o que realmente dava força para a intensidade do estrondo advinha da orbe terrestre, o barulho da trombeta saia da boca dos habitantes do planeta.

Por todo ar se ouviam palavras forjadas em fogo, imponderadas, intolerantes, radicais, frases feitas, discursos prontos e pré-fabricados, comprados numa pechincha em alguma lojinha fast-food ideológica.

No meio daquela balbúrdia eram poucos que olhavam para as nuvens e verdadeiramente sentiam falta da chuva, pouquíssimos plantavam árvores enquanto cantavam uma súplica:

– O sertão vai virar mar, dá no coração o medo que algum dia o mar também vire sertão…

Mas como dito, estes eram a minoria. Os demais apenas gastavam sua energia reclamando do calor, procurando refúgio nos ambientes artificiais, climatizados com engenhocas paliativas, assim que o suor cessavam, dirigiam sua hostilidade aos seus contrários, travavam um combate ferrenho contra seus opostos.

Opostos que perante um espelho pareceriam tão iguais…

Imprudentemente os ventríloquos pronunciaram discursos bélicos para suas marionetes repetirem. Os generais agradeciam aos seus militantes pela disposição ao combate. Sem muito pensar, estes facilmente abraçaram as causas, em nome da ideologia irreal pensada por algumas poucas vidas ordinárias.

Estava tudo escuro, havia lama no chão, ao som de uma marcha marcial ficou demonstrado o que acontece quando os tigres se libertaram… Ninguém se entendia, afinal eles foram enviados para combater, eram fuzileiros de palavras, foi assim que os altos comandos dividiram muitos possíveis amigos.

Na garganta dos plantadores restou a sede por alguma pequena gota de esperança. Mas num mundo como o nosso, quando sopram as trombetas da guerra, ainda são poucos que se preparam para semear a Paz…

PerseuAndromedaVoltei os olhos para o firmamento, lembrei-me das Perseidas cruzando o céu, tal qual uma manada de pégasos vencendo os infinitos espaços. Agora, no lugar daquela chuva de estrelas, estavam Áries e Marte nos observando.

Repentinamente entre os astros celestes, quase como originados de um momento onírico lúcido, ou então, como obra de mil acasos, calçando as sandálias aladas, surgiu Perseu juntamente com Andrômeda.

Eles sorriam, independente de qualquer fado ou fortuna. Embora tenham ficado pouco tempo nos céus, foi o suficiente para um lampejo.

Um Kraken ameaçava emergir do mar das multidões, porém a breve visão de Perseu e Andrômeda transmitia conforto e esperança. Mesmo que discretos nos céus, rogo que estas constelações continuem nos visitando em sonhos, revigorando nossa fé e prenunciando os bons momentos que surgirão.

Mistério sempre há de pintar por aí…

[author image=”http://oi59.tinypic.com/md2p28.jpg” ]Isabela Abes Casaca é graduanda em Direito e integrante do movimento Novo Ágora. Considera-se escritora amadora.[/author]

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