Desmanche de princípios morais (Por Paulo Figueiredo)

Paulo Figueiredo (AM)
Paulo Figueiredo (AM)
Paulo Figueiredo (AM)

Manchete do nosso sempre lembrado Jornal do Brasil, lá nos anos 80 do século passado, dizia mais ou menos o seguinte: Rio de Janeiro, um prefeito honesto e uma prefeitura deficitária; Nova Iguaçu, um prefeito problemático e uma prefeitura superavitária. No Rio, o prefeito era Roberto Saturnino Braga, imagem de político íntegro e inatacável.

E, em Nova Iguaçu, Paulo Leone, um gestor altamente questionado, sob fogo cerrado e permanente de seus opositores. Ambos foram eleitos com apoio na onda brizolista que tomou conta do Estado, a partir da eleição do governador Leonel Brizola em 1982, com as derrotas de Moreira Franco, Sandra Cavalcanti e Miro Teixeira, sepultando-se assim o reinado de Chagas Freitas e do PMDB na região.

O título jornalístico aí de cima me chega à memória com a recente eleição de Eurico Miranda presidente do Vasco da Gama. Dos 5.592 sócios com direito a voto, 2.733 sufragaram seu nome. Uma vitória expressiva, próxima da maioria absoluta. Sem entrar no mérito das verdades ou mentiras propaladas a respeito do dito-cujo, não custa registrar que Eurico colecionou atritos pesados com atletas vascaínos, outros clubes e com a imprensa. Também sofreu condenação criminal, em Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro, por sonegação fiscal e desvio de recursos do próprio Vasco da Gama, em decisão judicial mais tarde anulada pelo Superior Tribunal de Justiça, com fundamentos que desconheço.

Eurico, desde sempre autoritário e arrogante, jactava-se em dizer que administrava o Vasco como ditador. Continua o mesmo. No dia da eleição, fumava um charutão havana (hábito que, segundo o próprio, o faz parecer um mafioso – ato falho?), com baforadas abundantes e desafiadoras. Exibia-se como o senhor da cocada preta, segundo o provérbio popular, disposto a tomar posse de seus domínios de outrora. Em alto e bom som sustentou na campanha que o Vasco agora precisava mais do que nunca de sua participação, razão maior que o levou a disputar as eleições que acabara de vencer. Eleito, na linha da mais incerimoniosa empáfia, proclamou-se presidente, ciente de que seu nome será referendado pelo Conselho Deliberativo do clube.

Preparem-se os vascaínos e acautelem-se os torcedores e dirigentes de outras equipes brasileiras para a reintrodução da prática agressiva e de provocações rasteiras típicas do cartolão Eurico Miranda, quando não resultem em invasões do gramado em jogos com placar desfavorável aos seus interesses e de seu time. Assim, no horizonte imediato, a grosseria, a incivilidade e os sentimentos antiesportivos, que negam a natureza do futebol, como esporte de massa, que faz a alegria do povo, única válvula de escape para suas incertezas e angústias do cotidiano.

Eurico ressurge diante do fracasso da administração Roberto Dinamite, ídolo da torcida e uma das maiores referências da história cruz-maltina, o oposto do presidente agora mais uma vez eleito. Apesar de experimentar insucessos em 2008 e 2013, ainda conquistou a Copa do Brasil e um vice-campeonato em 2011. Mas, em novo mandato, mais uma derrocada, com sucessivas crises financeiras, que impediram investimentos na contratação de novos craques, independente do atraso na folha de pagamento de salários dos atletas. Dava-se, desse modo, um passo forte na direção do retorno do conhecido cartolão, que passou a cavalgar na campanha em cima do desastre da presidência comandada pelo grande desportista do passado.

A verdade é que há um desmanche de princípios morais na sociedade brasileira, com exemplos que se espalham de cima pra baixo como metástase pelo corpo da Nação. Da política ao esporte, há muitas similitudes e coincidências, ontem como hoje. Quem não lembra do “rouba, mas faz”, do governador Adhemar de Barros de São Paulo, que fez escola e terminou explodindo no Mensalão e no Petrolão de dimensões assustadoras. E das crises sucessivas que marcam a história da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sob a direção do notório Ricardo Teixeira, envolvido em escândalos e denúncias de corrupção que o obrigaram a deixar o cargo bem antes do término de seu mandato na organização.

Tinha que dar no que deu, na pré-falência do futebol brasileiro, com equipes que se arrastam em situação de penúria no campo e fora das quatro linhas, uma situação que levaria ao vergonhoso placar de 7 a 1 em favor da Alemanha. Fica a lição. Importante é fazer, mas fazer administrando com honestidade e competência. É perfeitamente possível, basta ser operoso e probo, no esporte e na vida. Do contrário, resta a trilha do opróbrio, tendo como vítimas os clubes, as equipes e seus atletas, o povo brasileiro e sua paixão maior.(Paulo Figueiredo – Advogado, Escritor e comentarista polí[email protected])

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