Felizes no delírio – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Alguns leitores me indagam as vezes porque escrevo com tanta ironia, e respondo sem o menor constrangimento, nem todas as vezes escrevo com ironia, escrevo muito mais com a realidade do que ironizando o estado atual das coisas. Deixei as redes sociais exatamente porque ali, tinham muito comentários sobre meus artigos, de modo irônico, mas acho que consigo concatenar a ironia com a realidade, Por exemplo, acredito que a felicidade bate à porta. Já não precisamos comprá-la com receita tarja-preta na prateleira dos ansiolíticos e antidepressivos nas farmácias.

Agora, somos tarja-preta no jiu-jitsu do dia-a-dia. Se, antes, vivíamos aflitos e sem trabalho, comendo duro pão com alho, eis que agora temos o “ás” do baralho. Enfim, chegou a prosperidade! Tanta, que a ignorância, a fome e a marginalidade já não são um problema. Agora, o único teorema é a obesidade. Em qualquer idade. Perdão por rimar, mas rimo porque me falta ar! Nos diferentes círculos oficiais há tanta euforia, tanta visão de otimismo ou ufanismo piegas, que até parece que vivemos sob ditadura. Sim, pois nas ditaduras todos os olhares convergem para o poder supremo. Até a oposição é guiada por quem detém as rédeas do cavalo-mor em que se transformou a República. E como todo bom equino, com cavalar dom divino, repetimos a linguagem presidencial e empilhamos êxitos em cima de êxitos, como sacos num armazém de cereais.

Em qualquer área federal, estadual ou municipal -, só há espelhos para autoelogios. Manaus, por exemplo, vive momentos difíceis, fruto de uma longa sucessão de governos medíocres, mas o novo governador buscou apenas composições partidárias, sem convocar as “cabeças pensantes” do Estado para delinear caminhos e ações. Repetiu em tom menor o que o presidente da República fez no âmbito da nação, ao reunir a esmo quem o quisesse apoiar em votos no Congresso.

Os que pensam e sabem não estão nos partidos. A vida partidária transformou-se em simples atividade de catar votos, sem interpretar a sociedade e sem tentar vasculhar os caminhos do futuro. Em qualquer lugar, fala-se hoje dos perigos do aquecimento global, mas continuamos a degradar a natureza em cada passo do dia-a-dia.

O poder público, inerme e inerte, não pensa sequer em convocar os grandes especialistas das diferentes áreas – da ciência biológica e química ao Direito – para definir uma política de ação que, no degrau seguinte, abarque o setor privado e a comunidade. Perdemos a noção do futuro.

Os novos e grandiosos instrumentos da tecnologia eletrônica não nos levaram a aprofundar a visão e compreensão do mundo. Nos comunicamos mais e melhor, mas crescemos em espírito também? Suspeita-se que a radiação dos campos eletromagnéticos possa levar a novos processos cancerígenos, mas quem se desprende do telefone celular? Há mais de dois anos, o quotidiano do país com uma pandemia que parece não ter fim, reduz-se a esperar o novo escândalo, que haverá de fazer esquecer o anterior.

Nossos casos de corrupção parecem até fazer parte do desenrolar da vida, como os atentados no Iraque. Em ambos os casos, é o delírio quem manda. Lá, o terror da ocupação estrangeira soma-se ao fanatismo islâmico e as bombas soam como fácil e trágico protesto. Aqui, o conluio do setor privado com políticos e altos funcionários aumenta lucros e faz crescer fortunas com a facilidade impune da nossa tragédia de subornos.

O desmascaramento das redes de corrupção, porém, em vez de inibir, parece estimular o surgimento de novas formas de roubo, como se a depravação fosse o cerne dos altos escalões da função pública nos três poderes.

Foram mostrados os segredos óbvios de que a maior empresa do país não poderia ser a donzela virgem do prostíbulo. O próprio gigantismo da Petrobras (em atividades e orçamento) dificulta os elementos de controle e é de se indagar o que terá ocorrido por lá nos anos da ditadura, quando tudo se calava, ou nos tempos recentes, quando nada se investigava? A felicidade está aí, porém, e deliramos com os jogos da Copa América, dos campeonatos que são orçados em milhões, mas nos quais, subitamente, gasta-se bilhões segundo alguns, Enfim, felizes no delírio.

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