O risco de associar os militares a um presidente mentalmente perturbado

O gesto de publicar o vídeo suscita a inevitável pergunta: os militares vão tolerar que a sua imagem austera se associe à de um presidente mentalmente perturbado? - foto: recorte

O vídeo ensandecido publicado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua conta do Twitter reagindo aos protestos populares que se espalharam de Norte a Sul do país durante o Carnaval é claramente uma manifestação de desequilíbrio emocional e psicopatia.

Fosse apenas uma explosão de um cidadão comum no ambiente de sua roda de amigos, o assunto não mereceria a menor consideração.

Acontece que se trata do presidente da República, expressando-se pelas mesmas redes sociais que desde a campanha eleitoral elegeu como o principal meio com que se comunica com a população.

Agora, no exercício da Presidência da República, as tiradas que publica nessas redes se tornaram para Bolsonaro mais importantes do que os pronunciamentos públicos que faz em atos oficiais ou em entrevistas aos meios de comunicação. E do seu ponto de vista, mais eficazes do que os boletins lidos com imponência por seu circunspecto porta-voz.

A estas alturas o tuíte do presidente com as imagens obscenas que anexou está correndo o mundo que, estarrecido, se pergunta como pode um país e um povo com a força espiritual do brasileiro ter caído num semelhante pântano.

Isto, para além das inevitáveis repercussões e reações políticas, porque, se já havia o consenso de parte significativa da população – e não só de quem votou contra ele – quanto à sua incapacidade para governar, pelo despreparo intelectual e político, ignorância sobre os graves problemas nacionais, desconhecimento das políticas públicas e dos espinhosos temas socioeconômicos, agora paira uma nova dúvida, uma inquietante interrogação: pode alguém mentalmente perturbado assumir uma tarefa tão desafiadora, complexa e exigente como governar o Brasil?

O gesto de publicar o vídeo suscita a inevitável pergunta: os militares vão tolerar que a sua imagem austera se associe à de um presidente mentalmente perturbado? – foto: recorte

É inevitável que a inquietação assalte o espírito da caserna. Primeiramente porque o comportamento desequilibrado do mais alto mandatário nacional compromete a estabilidade política e a exequibilidade dos planos do governo, dos quais os militares se consideram fiadores.

Os militares têm enorme influência no governo e não chegaram ali apenas para obter sinecuras. Consideram que é sua missão alcançar êxito na gestão pública e fixar uma imagem de competência política e administrativa.

Não é por acaso que mais de cem fardados ocupam postos estratégicos em todos os escalões do governo federal. Ministérios e empresas estatais estão repletos de oficiais das Forças Armadas.

Dentre estes, 46 oficiais ocupam posições estratégicas no governo, dando a palavra final sobre políticas decisivas, como extração de minérios, modernização de comunicações, construção de estradas, manutenção de hidrelétricas e questões indígenas.

O vice-presidente da República é o opiniático e onipresente general Hamilton Mourão; no Gabinete de Segurança Institucional encontra-se instalado o general Augusto Heleno, que já tinha sido figura proeminente da campanha eleitoral e é um dos mais influentes conselheiros de Bolsonaro; no Ministério das Minas e Energia, está o almirante Bento Albuquerque; a Secretaria de Governo tem como inquilino o general Carlos Alberto dos Santos Cruz; para a Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Bolsonaro nomeou o tenente-coronel da Aeronáutica Marcos Pontes; a Infraestrutura está sob a responsabilidade do capitão do Exército Tarcísio Gomes de Freitas; a Controladoria-Geral da União foi atribuída ao capitão do Exército Wagner Rosário e o Ministério da Defesa, que em situação de normalidade democrática deveria ser tocado como já foi, por um ministro civil, agora está a cargo do general Fernando Azevedo Silva. Isto, para referir-nos apenas ao primeiro escalão.

Como uma espécie de figura espectral, pairando sobre todos, num cargo de “assessoria” no Palácio do Planalto, está o general Eduardo Villas-Bôas, ex-comandante do Exército, fiador do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e da prisão do presidente Lula, para garantir a “unidade da tropa”.

A presença ostensiva de militares de alta patente no governo Bolsonaro não configura necessariamente uma ditadura militar. Mas resta óbvio que, sem enveredar de momento por este caminho, que foi traumático na história do país, os militares sinalizam a tutela sobre o governo.

Assim, chamam a si a responsabilidade sobre o que ocorrer no país enquanto durar o mandato de Bolsonaro. Sob críticas, os militares se defendem argumentando que a nomeação de oficiais das Forças Armadas para cargos de confiança tem o objetivo de conferir credibilidade aos postos com base em um modo específico de administrar. Quer queira, quer não, os militares fazem uma aposta alta e associam a imagem da instituição à do governo como um todo e do seu chefe constitucional.

Seja por pretensões próprias, seja por zelo com a imagem das Forças Armadas, quem até agora tem assumido a tarefa de fazer o contraponto com as ações e retórica de Bolsonaro, seu clã e os ministros mais extremados da direita, é o general Hamilton Mourão.

A mais recente manifestação dele foi a crítica à demissão da especialista em segurança pública, Ilona Szabó, convidada para compor o CNPCP (Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária), em seguida demitida por pressão da extrema-direita. Para Mourão, a demissão de Szabó foi uma “perda para o Brasil”.

Mourão já opinou também, em contradição com Bolsonaro e seu chanceler, sobre a proposta de instalar a Embaixada brasileira em Israel na cidade de Jerusalém e contra a intervenção militar brasileira na Venezuela.

O vice-presidente movimenta-se com desenvoltura na Esplanada dos Ministérios, recebe embaixadores, empresários, a imprensa e até representantes de movimentos sociais.

A delicada questão da soberania territorial já motivou a opinião crítica também do ministro da Defesa, em antagonismo com o chanceler Ernesto Araújo que prometeu aos Estados Unidos a instalação de uma base militar no território nacional.

Há, assim, muitas evidências de que os militares querem controlar o governo, mas rejeitam a ideia de embarcar na canoa furada dos desatinos de Bolsonaro, seu clã e ministros mais conotados como integrantes da extrema direita.

Agora, diante dos sinais de perturbação mental do presidente evidenciados no tuíte carnavalesco, têm mais motivos para discutir se pretendem ou não continuar associando a imagem da instituição à do presidente.

Por: José Reinaldo Carvalho, para Jornalistas pela Democracia

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