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Seleção brasileira superou a polarização política, mas as mazelas continuam – por Carlos Santiago

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado

A seleção brasileira começou sua campanha sem empolgar a torcida, com convocações sem credibilidade e enfrentando problemas táticos e médicos — uma combinação que parecia ser a receita perfeita para o fracasso na Copa do Mundo. No entanto, dentro de campo, fez aquilo que a política não conseguiu, nem consegue: unir o país.

No último jogo contra a seleção japonesa, comunistas e neoliberais comemoravam juntos; ateus e religiosos se abraçavam; pobres e ricos davam as mãos; o ruralista e o citadino riam lado a lado; bolsonaristas e petistas cantavam os mesmos refrões; e as famílias se vestiam apenas de verde e amarelo. Até os presos sorriam para os carcereiros.


Até mesmo os simpatizantes do Boi Garantido e do Boi Caprichoso deram uma trégua durante a confraternização futebolística. Integrantes da Escola de Samba da Portela cantavam emocionados o Hino Nacional ao lado da turma da Escola de Samba da Mangueira. Nordestinos gritavam o nome do Brasil abraçados aos sulistas. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tomavam cerveja com latifundiários.

Com a memória do passado sendo revivida pela televisão, essa unidade nacional também se alimentava das lembranças da conquista da Copa de 1970 e da derrota na Copa de 1982. Era uma mistura de lágrimas e alegria. Nem os grandes ídolos foram esquecidos: Pelé, Romário, Bebeto, Ronaldo e Ronaldinho. Tudo contribuía para fortalecer o sentimento de união e a mobilização nacional em busca do hexacampeonato.

É claro que, na política, uma unidade dessa natureza é muito mais difícil. Os interesses são numerosos; há dezenas de partidos, grupos regionais e nacionais disputando espaço; existe a busca permanente pelo controle da máquina pública e uma luta constante pelo poder. A seleção brasileira, por sua vez, representa um único time e um único objetivo. Ela não precisa jogar todos os dias; a Copa do Mundo não acontece todos os anos; e o eleitorado não escolhe quem entra em campo.

Entretanto, é justamente durante a Copa do Mundo que muitas tragédias nacionais acabam sendo temporariamente esquecidas: a corrupção, o patrimonialismo, a desigualdade social, os crimes ambientais, os baixos indicadores educacionais, a violência crescente e a persistência de uma cultura autoritária. Sempre surge a frase: “Deixa isso para depois”. E esse “depois”, muitas vezes, nunca chega.

Sei que é difícil promover uma união nacional em torno da melhoria da educação, da saúde, do transporte urbano, da segurança pública ou da redução da corrupção. Porém, o esporte demonstrou que o Brasil é capaz de construir uma rara unidade de sentimentos e de mobilização coletiva. Terminada a Copa, as bandeiras serão recolhidas, as mazelas voltarão a ficar expostas e o país seguirá dividido pela polarização política, ainda distante de um projeto estruturante de unidade nacional.

Sociólogo, Cientista Político, Filósofo e Advogado.

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