Sem a ressaca da culpa – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Caros leitores e leitoras, já fiz dentre mais de mil e seiscentos artigos, alguns que coincidiram com o dia dez de Julho, data em que faço aniversário, e nunca, durante esses mais de vinte e três anos, fiz um artigo falando de meu modo de viver, ou de dar ideia de como viver sem a ressaca da culpa, plenos de vida na qual a paixão sobrepuja a omissão e o encanto tece luzes onde a amargura costuma bordar teias de aranha. Já escrevi várias vezes sobre porque temos em Manaus a rua Dez de Julho, simbolizando a libertação dos escravos antes da Lei Aurea, que só foi sancionada pela Princesa Isabel em maio do ano seguinte. Por isso, peço desculpas aos que me dão a honra de compartilhar a leitura desses mais de mil e seiscentos artigos, para dizer o pouco do que sou e penso, embora existam discordâncias, principalmente por aqueles que não me conhecem além do corpo, ou seja não conhecem a alma. Posso dizer que não sonego afetos, nem arranco de mim fontes onde borbulham transparências e não miro os que lhe estão próximos como estranhos passageiros de uma viagem sem pouso, praias ou horizontes.

Felizes aqueles que abandonam no passado seus excessos de bagagem e, coração imponderável, recolhem à terra a pipa do orgulho e do tédio; generosos, ousam a humildade.

Desperto hoje ao som de preces e agradeço o tido e não havido maravilhado pelo dom da vida, malgrado tantas rachaduras nas paredes, figos ressecados e gatos furtivos. a vida é dádiva, contração do útero, desejo ereto, espírito glutão insaciado de Deus. Que este próximo ano de vivência nessa terra, seja novamente para que não poupe palavras e consiga semear fragrâncias nas veredas dos sentimentos.

Seja também feliz o novo ano cronológico de nascimento, de quem guarda-se no olhar e, se tropeça, não cai no abismo da inveja nem se perde em escuridões onde o pavor é apenas o eco de seus próprios temores. Aqui está quem se recusa a ser tão velho que ambiciona tudo novo: corpo, carro e amor; viver é graça a quem acaricia suas rugas e trata seus limites como cerca florida de choupana de montanhês.

Que esta nova etapa de minha vida, endividado e alegre, carente de afago, mas repleto de vindouras fortunas em meus anseios. Louvo aos órfãos de Deus e de esperanças, e aos mendigos com vergonha de pedir; aos cavalheiros da noite e às damas que jamais provaram do leite que carregam em seus seios.

Felizes sejam, os homens ridiculamente adornados, supostos campeões de vantagens; aqueles que nada temem, exceto o olhar súplice do filho e o sorriso irônico das mulheres que não lhes querem. Ficarei feliz, se as mulheres que se matam de amor, e de dor por quem não merece, e que, no espelho, se descobrem tão belas por fora quanto o sabem por dentro.

Que esta nova idade seja de paz para que quando bêbado jamais tropeçe em impertinências e para que não conspire contra a vida alheia. Sou daqueles que adora quem coleciona utopias, faz de suas mãos arado e, com o próprio sangue, rega as sementes que cultiva. Que sejamos muito felizes, nós os denominados velhos que não se disfarçam de jovens e os jovens que superam a velhice precoce; seus corações tragam a idade alvíssaras de emoções férteis.

Muitas felicidades aos que trazem em si a casa do silêncio e, à tarde, oferecem em suas varandas chocolate quente adocicado, ou vinho, com sorrisos de sabedoria. Espero, mesmo com essa pandemia, que este próximo ano cronológico de idade, seja um ano feliz aos que não se ostentam no poleiro da própria vaidade, tratam a morte sem estranheza e brincam com a criança que nos habita. A todos nós que juramos sequestrar os vícios que carregamos e não pagar o resgate da dependência; o futuro nos fará magros por comer menos; saudáveis, por fumar oxigênio; solidários, por partilhar dons e bens. E que o Brasil que circunscreve a geografia do paraíso terrestre, continue apesar dos políticos, sem terremotos, tufões, furacões, maremotos, desertos, vulcões, geleiras, tornados, neves e montanhas inabitáveis. Conceda-nos Deus a bênção de tantos dons, livres de políticos que constroem para si o céu na Terra com a matéria-prima do inferno coletivo. Espero estar entre os vivos no próximo dez de julho, sem a ressaca da culpa.

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