Solidariedade – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Infelizmente não podemos fugir do assunto do coronavirus, mas tentarei neste artigo dar uma outra tonalidade a essa pandemia. Fica claro que ao final de tudo isso, porque tudo passa, o mundo será diferente, se não for pelo menos para saber lavar as mãos, será pela solidariedade muito mais latente.

Segundo consagrados especialistas em desenvolvimento profissional, no final das próximas duas décadas só existirão dois tipos de profissionais: os rápidos e os mortos. Quem deseja manter sua trabalhabilidade afiada reconhece que a permanência, a mutação são contrários inseparáveis, como já apregoava Confúcio, nascido no ano 551 antes de Cristo, que apontava cinco qualidades para quem desejasse ser bom profissional: gentil sem aceitar subornos, trabalhar ao lado do povo sem dar motivos para ressentimentos, possuir ambições sem ser avarento, ter dignidade sem orgulho indevido e inspirar respeito sem exercitar a crueldade. Com tais predicados, todo ser humano deveria, segundo ainda Confúcio, “estudar como se jamais fosse aprender, como se tivesse medo de perder o que deseja aprender”.

A era dessa pandemia, é bem verdade, fez emergir energias ocultas, ampliando lazeres e liberdades, enormes abismos se abrindo entre os que possuem quase tudo e os que não possuem quase nada, nem sequer esperança sadia. Ações levianas e devassas são cometidas pelos que se dizem inclusive cristãos, cada um desejando puxar os óbolos para suas sacolinhas, às escondidas, como se Deus estivesse morto, mortinho da silva. Como consequência, a evolução tecnológica, fantástica sem ser global, ampliou desesperos regionais, gerando indiferenças dos impérios econômicos, quase já erradicando do cotidiano primeiromundista o vocábulo solidariedade.

É preciso que um a um todos os indivíduos acordem para que juntos solidifiquem o concreto que substancia a solidariedade, que até então reside unicamente nas idealizações de patamares sociológicos. Não se trata aqui de caridade ou filantropia, mas de solidariedade pura, complexa, acolhedora da necessária mudança paradigmática dessa exposta realidade doentia. Por meio da consciência da coletividade, sua principal arma, incidirá na mente e no coração do homem a relevância deste enquanto ser social, ou seja, a sua importância enquanto célula fundamentalmente agregável do organismo social.

O que acontece com a busca dos aspiradores artificiais é sintoma que ultrapassa e muito as fronteiras de uma loucura exclusivamente individual. No mais, é introjetar com maior coragem a sabedoria explicitada por Miguel Falabella, ator e dramaturgo da Rede Globo: “De uns tempos para cá, comecei a perceber que há uma geografia fascinante no outro. Sempre. A gente não dá muita atenção, porque não temos tempo, não abrimos mão de certas prioridades, não paramos para olhar no espelho, que dirá o olho do próximo! Mas é, igualmente, um jogo fascinante, esse de descobrir gente e seus universos. Amar as pessoas e suas diferenças – esse é o jogo que venho jogando de uns tempos para cá e, acreditem, tenho gostado cada vez mais das descobertas, porque há gente que são continentes e uma promessa de terra para o navegador solitário”. Assino embaixo, sem pestanejar, e persistirei proclamando a lição do Falabella, bastando-me a carteirinha de Ser Humano, essa categoria tão vilipendiada pela tão já estupefata pós-modernidade. Feliz Pascoa a todos os leitores e leitoras.

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