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A quem culpar sobre a mediocridade da Seleção Brasileira – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário - Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

Confesso que não ia comentar sobre a Copa do Mundo, porém, o futebol nos toca nas entranhas, não há outro país onde a bola influa de forma tão imperiosa nos humores cotidianos da nação, a funcionar como fator de união e de apelo à identidade. Capaz até de propiciar um raríssimo instante de igualdade, na terra tão desigual, na hora em que o herdeiro da casa-grande levanta hosanas ao herdeiro da senzala e o eleva ao altar dos heróis da pátria de chuteiras. E então, vejamos.

Permito-me alimentar a certeza de que uma pesquisa capilar provaria que a torcida brasileira não está somente decepcionada com os desempenhos da seleção, e tem boas razões para tanto, mas também, e sobretudo, ofendida pelas trajetórias assumidas pelos negócios da bola. Façam a sua própria investigação, perguntem ao acaso: terão de verificar que a maioria identifica o time nacional com as mazelas da CBF, vislumbra a bandalheira no rumo da Copa e se inclina, espanto dos espantos, a torcer contra.


Pergunto aos meus bolipédicos botões se haverá precipitação no entendimento de que a mediocridade dos canarinhos de hoje é da responsabilidade do presidente da CBF Samir Xaud, ou do técnico italiano Anceloti. não sem aspereza, haver uma ligação escancarada entre o business e o futebol e o Roraimense, é o perfeito intérprete desta associação celerada, nutrida pela lavagem de dinheiro e a supervalorização de moços despreparados para fortunas e badalações exorbitantes. Os próprios e enfadonhos torneios realizados no Brasil provam a decadência. Antes moral do que técnica. Creio viver uma quadra importante, de um certo ângulo, ao observar o amadurecimento da torcida. Ela se habilita a dimensionar a paixão futebolística dentro da realidade contingente, emoldura-a ao sabor da circunstância acabrunhadora. Trata-se de um grande avanço, e se o torcedor entende a primazia da questão moral, e política, e nesta perspectiva consegue enxergar os males do futebol atual, em primeiro lugar evolui como cidadão.

Recordo o Mundial de 1970, e do meu desapontamento ao constatar que até nas masmorras do terror de Estado presos e torturados gritavam gol. Ao cabo, o ditador Emilio Garrastazu Medici, senhor de uma fase duríssima, talvez a mais feroz em 21 anos de ditadura, celebrou a vitória final do Brasil de Pelé e cia. com uma festa popular na Praça dos Três Poderes e, no auge do arrebatamento, entregou-se a umas embaixadas com uma bola de borracha. A Fifa, sabe-se, pretende impor as suas regras, a atropelar soberanias nacionais, e aqui vale a referência, em vez de esbanjar ignorância e estultice. Li hoje sobre a interferência do filho do ministro Gilmar Mendes na CBF e na seleção. É vergonhoso tão quanto a derrota por sete a um em 2014 para a Alemanha. Independentemente do resultado dos gramados, é um Mundial à moda decartolas, de senadores e de ministros da Suprema Corte. Mesmo assim, continuo na euforia e embalado por essa catarse que a seleção canarinho provoca.

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