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Enquanto o país se afundava na lama bolsonarista, Congresso passou a boiada ambiental e mais proteção para políticos

Deputados de direita comemorando pautas contra os interesses do povo - foto: recorte

Leonardo Sakamoto diz em seu artigo que os holofotes em Vorcaro e nos Bolsonaros, permitiu o Congresso Nacional dar uma rasteira no povo brasileiro e no meio ambiente

Enquanto o país se afundava na lama moral das revelações envolvendo o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro (um escândalo que monopolizou redes sociais, programas policiais, canais de YouTube e rodas de bar), o Congresso Nacional fez aquilo que sabe fazer melhor quando ninguém está olhando: passou a boiada.


Deputados aproveitaram a cortina de fumaça para impor dois ataques diretos ao interesse público. Um contra o meio ambiente. Outro contra a própria democracia.

Na área ambiental, a Câmara aprovou a redução da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, retirando 486 mil hectares da proteção mais rígida e convertendo a área em uma APA, categoria muito mais permissiva à exploração econômica. A proposta ainda abriu espaço para mineração e expansão agropecuária na região.

A boiada veio em comboio

Os deputados também avançaram em propostas para esvaziar a capacidade de fiscalização ambiental, limitando o uso de tecnologias remotas pelo Ibama e enfraquecendo mecanismos modernos de monitoramento do desmatamento. Ao mesmo tempo, transferiram atribuições ambientais para o Ministério da Agricultura e abriram brechas para facilitar a destruição de campos naturais em diferentes biomas brasileiros.

Tudo embalado no velho discurso da “desburocratização”, que frequentemente significa apenas retirar obstáculos para quem lucra devastando patrimônio público.

É o mesmo roteiro de sempre: chamam grilagem de regularização fundiária, destruição ambiental de desenvolvimento e desmonte do Estado de modernização.

A votação sobre Jamanxim ocorreu em ritmo de atropelamento legislativo. Enquanto isso, em outra frente, deputados cuidavam de si mesmos e não de seus patrocinadores.

Mais proteção da classe política

Deputados aprovaram uma minirreforma eleitoral que, na prática, funciona como um programa de anistia e autoproteção da classe política. Partidos poderão renegociar em até 15 anos dívidas relacionadas ao descumprimento de regras eleitorais.

Parlamentares também flexibilizaram regras para disparos em massa de mensagens, institucionalizando mecanismos de assédio digital ao eleitorado que ajudaram a degradar o debate público brasileiro nos últimos anos. E não parou aí.

O Congresso derrubou vetos presidenciais para permitir repasses e doações a municípios em pleno ano eleitoral, inclusive para cidades inadimplentes. A medida facilita o fluxo de verbas, emendas e benefícios exatamente no período em que a máquina pública historicamente é usada para produzir fidelidade política.

Claro que tudo vem embalado em justificativas técnicas, municipalistas e burocráticas. Mas a história brasileira já ensinou o suficiente sobre como dinheiro público distribuído sem controle em ano eleitoral costuma funcionar no mundo real.

O mais impressionante não é apenas o conteúdo das medidas. É a coreografia.

O Congresso aprendeu que, no Brasil hiperconectado, basta um escândalo suficientemente barulhento para esconder decisões estruturais tomadas longe do foco principal. Enquanto o público se indigna com personagens, negociações e cifras obscenas, interesses organizados ocupam o plenário para alterar regras do jogo.

É a política do truque de mágica: a mão direita aponta para o escândalo e a esquerda enfia a mão no bolso da sociedade. E talvez seja exatamente isso o mais perigoso.

Porque escândalos passam. Viralizam por 48 horas e morrem no próximo ciclo de indignação. Já mudanças ambientais, flexibilizações eleitorais e mecanismos de captura do Estado permanecem. Produzem efeitos concretos, duradouros e silenciosos.

No fim das contas, enquanto o Brasil discutia se a mensagem de Flávio Bolsonaro para o dono do Banco Master (“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”) significava promiscuidade ou vassalagem, o Congresso trabalhou. Trabalhou muito. Contra o povo.

Leonardo Sakamoto

VIAhttps://correiodaamazonia.com/
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