
Enquanto o Comando Vermelho (CV) mantém presença em 23 estados brasileiros, o Rio Grande do Sul segue fora do mapa da facção criada nas prisões do Rio de Janeiro. Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) mostram que, além do território gaúcho, apenas São Paulo, Rio Grande do Norte e o Distrito Federal não registram atuação direta do grupo. Especialistas apontam que a ausência do CV no estado está ligada à formação histórica das facções locais, à cultura regional e à estrutura do crime organizado no sul do país.
Facções locais se anteciparam à expansão do CV
O professor Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, da Escola de Direito da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que o Rio Grande do Sul criou seu próprio “ecossistema criminal” antes mesmo da expansão do Comando Vermelho.
“Quando o CV começava a se organizar, no fim da década de 1970, o estado já tinha grupos atuando de forma estruturada, principalmente dentro do Presídio Central de Porto Alegre”, afirma. “Esses grupos ocuparam o espaço de poder de forma autônoma, o que dificultou a entrada de organizações de fora.”
Interiorização e domínio completo
Com mais de 20 anos de experiência na Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, o juiz Sidinei Brzuska destaca que as facções gaúchas cresceram para o interior e consolidaram o controle sobre os principais presídios.
“Elas pararam de disputar pontos na capital e foram dominar cidades menores, onde não havia crime organizado. Ampliaram sua base territorial e não deixaram espaço para ninguém de fora”, explica.
O Rio Grande do Sul já chegou a ter o maior número de facções locais do país — pelo menos dez, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essa fragmentação, avaliam os especialistas, cria um cenário competitivo que impede a hegemonia de uma facção nacional. “Cada grupo tem seu território, suas rotas e sua rede de proteção. Isso dificulta que o CV consiga impor uma liderança”, acrescenta Azevedo.
“Pacto informal” e identidade cultural
Além da estrutura criminal, há um fator simbólico que reforça a resistência à presença do Comando Vermelho. Para o jornalista e escritor Renato Dornelles, autor de Falange Gaúcha, o crime no estado carrega forte influência da identidade cultural gaúcha.
“Existe um pacto informal entre as facções daqui para não deixar organizações de fora entrarem. É algo cultural, ligado à ideia de pertencimento e autonomia”, explica.
Brzuska concorda: “O Rio Grande do Sul tem uma cultura muito própria, e isso se reflete até na forma como o crime se organiza. Há um certo orgulho de resolver as coisas ‘dentro de casa’.”
Parcerias comerciais, sem subordinação
Embora o CV não tenha domínio territorial no estado, há relações pontuais com facções gaúchas, principalmente no tráfico de drogas.
O diretor do Instituto Cidade Segura, Alberto Kopittke, lembra que essas conexões ficaram evidentes durante a guerra entre CV e PCC em 2016 e 2017. “Houve reflexos no estado, mas o vínculo é comercial, não hierárquico”, afirma.
Segundo Azevedo, essas parcerias ocorrem em rotas e negociações específicas, sem que haja submissão. “Há diálogo e negócios, mas não existe incorporação simbólica ou comando centralizado do CV sobre os grupos locais.”
Distância geográfica e ação policial
Além dos fatores internos, a Secretaria da Segurança Pública do RS cita a localização do estado como um elemento de proteção.
“O Rio Grande do Sul está distante do centro do país e das principais rotas logísticas do tráfico, o que dificulta o avanço de facções nacionais”, informou a pasta, em nota. A secretaria também destaca o trabalho “vigilante e firme” das forças de segurança como um fator que ajuda a conter a expansão.
Estratégia diferente
Enquanto o Comando Vermelho busca expandir-se para outros estados, as facções gaúchas adotam o caminho inverso: a interiorização.
“Elas optam por crescer dentro do próprio estado, aproveitando o aumento do consumo local e rotas de conexão com outras regiões”, analisa Azevedo. “É uma forma de manter o controle e garantir sustentabilidade dos negócios ilícitos, sem necessidade de associar-se a grandes facções nacionais.”
Fonte: g1




