Feliz Ano Novo – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Pode parecer esquisito, em pleno final de abril o articulista desejar Feliz Ano Novo, mas não dizem que o ano só começa realmente depois do carnaval? Pois é, e o carnaval foi semana passada, então vamos ao texto. Se você nunca fez promessas para o Ano-Novo, ou fez e as cumpriu, deve ser um alienígena espião que, segundo milenistas, estaria entre os humanos nesta era. Cada novo ano é engordado de promessas: exercícios, dietas, escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho, evitar dívidas, perdoar um inimigo, dedicar-se mais ao amor e aos amigos. Quantas frágeis esperanças! a paz do mundo, a harmonia dos povos, o fim da miséria, a proteção de animais e plantas, a cura da Aids e do câncer. Se você nunca consultou um baralho cigano, oráculos e horóscopo, confirma-se a suspeita. Humanos normais, em algum cromossoma recôndito, guardam um anseio óbvio por dominar o futuro, para deter as rédeas do tempo vindouro, para levar o porvir no fundo dos bolsos.

No entanto, se você fez qualquer das coisas acima, não se desespere. É normal. E ser normal, por enquanto, não está listado entre os sete pecados capitais. Sentados à nascente do milênio, nos deparamos com a assustadora verdade: o mundo não acabou como esperado. Logo, nossas responsabilidades se multiplicam. Eis a situação ambígua do jovem que alcançou a autonomia da ansiada maioridade, mas, também, deve responder por assuntos dos quais estava liberado anteriormente. Temos que assumir tarefas exclusivamente nossas na construção da humanidade. É preciso, de novo, comprometer-se com a paz. Assim, ao estourar os fogos da passagem de ano, explode dentro dos homens uma revolução, pessoal e social, de consciência. O mundo ainda está longe dos sonhos; os sonhos ainda dormem seu sono de pedra. Se bom ou ruim, não sei, mas, onde está o mundo exótico da ficção científica? Se nele estivéssemos, nosso maior compromisso seria destruir a gosma assassina. Teríamos, quem sabe, inventado uma arma para matar o monstro dos anéis de Saturno. Estaríamos nos defendendo das libélulas gigantes da beira dos buracos negros? Porém, a ficção se afasta enquanto a realidade bate à porta. Há óleo nos mares, seres extintos e em extinção, cidades poluídas, buraco na camada de ozônio, mortalidade infantil, guerras.

Esta é a nossa nave! Que sentido terá nossa promessa de Ano Novo? Seremos salvos pela energia dos cristais? Que cartas teríamos que jogar para que as boas notícias se concretizem? Como faremos para criar um mundo feliz? Quem proclamará um oráculo confiável de paz? Festejar um novo ano é confessar grandeza e fragilidade. Por um lado, representa a “zeração” dos erros, por outro, o recomeço de projetos felizes. Nossas promessas não são mais que reinstalações do paraíso antes do pecado e pré-estreia do mítico Reino dos Céus. No Ano-Novo há a catarse do início e do fim de todas as coisas. Nossos sonhos são a colonização que a felicidade, virtualmente, realiza nos vales onde correm o leite e o mel.

Entre sonhos e promessas, não se pode esquecer, o buraco negro não está nos confins do universo, mas aqui, sugando nosso destino nas decisões que, como indivíduos ou grupos, tomamos todos os dias. A Terra não corre risco de destruição por alienígenas, mas por autóctones. Será que os ETs não aparecerão para nos ensinar algumas coisinhas? Feliz Ano-Novo, terráqueos! Que consigamos em outubro eleger os melhores gestores e legisladores e que tragamos a sexta estrelinha no final do ano na Copa do Mundo.

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